TEXTO:
Parece não haver mais dúvidas quanto ao
mal-estar da civilização na atualidade, pelo menos, do
ponto de vista de considerável parcela da população
mundial acometida de problemas de toda espécie:
[5] fome e desnutrição, desemprego, doenças crônicas e
infecciosas, conflitos armados, desastres ambientais
e outras formas de geração de indigências. Só para
dar um exemplo desse mal-estar, segundo a FAO
(órgão da ONU para alimentação), cerca de seis milhões
[10] de crianças menores de cinco anos e mais outros
três milhões de pessoas morrem, todos os anos, em
consequência da fome. Portanto, entre aqueles que
exercem alguma forma de ativismo socioambiental, já
é mais do que consenso a sensação de que vivemos
[15] tempos muito incômodos e perigosamente sombrios,
sob os mais diversos aspectos da experiência
humana: institucional, social, econômica, ética,
espiritual e, notadamente, no que diz respeito às
mudanças climáticas e às questões de natureza
[20] política. Por um lado, conforme já amplamente
comprovado pelas ciências da Terra, as mudanças
do clima ameaçam seriamente as condições de
manutenção da biodiversidade, da qual depende a
vida do nosso planeta, o que já está nos colocando em
[25] situação de extrema vulnerabilidade, especialmente
o enorme contingente de excluídos gerado pela
visão econômica de mundo, representada pelo atual
sistema capitalista hegemônico de cunho neoliberal.
De outro, observamos, nas últimas décadas, um
[30] crescente enfraquecimento dos Estados e uma
permanente instabilidade da ordem política mundial.
O momento pelo qual passa a humanidade é de
extrema gravidade e, portanto, as possibilidades de
profundas regressões, de barbárie e até mesmo de
[35] um colapso civilizatório em longo prazo já começam
a permear algumas análises sobre conjuntura
global. Como bem disse dom Paulo Evaristo Arns,
ex-arcebispo emérito de São Paulo, na carta lida por
ocasião do seminário que debateu na Rio+20, em
[40] junho de 2012, “mais do que uma crise ambiental
enfrentamos uma crise civilizatória. Uma crise de
valores sem precedentes na nossa civilização. Se
exaure a natureza, assim, se exaure o homem, que
são partes indissociáveis”. Esse mal-estar também é
[45] alimentado pela sensação de ausência de um projeto
civilizatório. Há um vazio de ideias e ações que marca
os tempos atuais, como bem expressou recentemente
o sociólogo francês Alain Touraine, em entrevista ao
El País, em 28/03/2020, sobre a conjuntura da crise
[50] gerada pela pandemia do coronavírus: “hoje, não
há nem atores sociais, nem políticos, nem mundiais,
nem nacionais, nem de classe. Por isso, o que ocorre
é totalmente o contrário de uma guerra, com uma
máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e
[55] grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem
estratégia, sem linguagem. É o silêncio.”
Ao que parece, os entendimentos acerca da
origem desse mal-estar civilizacional ainda estão
muito dispersos, o que dificulta bastante a busca
[60] de consensos e a convergência de propostas e
ações, por isso a necessidade, mais que urgente,
de religarmos saberes e reformarmos o pensamento
que o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Edgar
Morin e outros, há tempos, nos alertam. No fundo,
[65] essa dissonância cognitiva tem a ver com a nossa
dificuldade de aprendizagem com os inúmeros fatos
negativos vivenciados ao longo da história. O filósofo
britânico John Gray resumiu bem essa nossa condição:
“se existe algo de único no animal humano é que ele
[70] tem a capacidade de aumentar seu conhecimento
em ritmo acelerado, mas é cronicamente incapaz de
aprender com a experiência”.
Há várias perspectivas para se observar esse
cenário de crise civilizatória e todas elas, em maior
[75] ou menor grau, devem ter sua validade e pertinência
para compreender e explicar essa condição do
nosso tempo atual. Nesse sentido, parece haver três
grandes impasses civilizacionais a serem enfrentados
pela humanidade nos próximos tempos: visão de
[80] mundo, mudanças climáticas e metamorfose, os quais
partem do pressuposto de que as ideias centrais
que permeiam cada um desses impasses são,
respectivamente, o ego, o antropoceno e o acaso.
Na verdade, tais impasses é uma grande
[85] crise existencial do nosso tempo, os quais estão
intimamente implicados e que, portanto, sua solução
demandará, talvez, o maior esforço que a humanidade
já enfrentou no curso de sua longa história. A proposta
então é refletir acerca desses três grandes impasses
[90] civilizacionais e tentar mostrar a interdependência
que há entre eles, e, assim, oferecer alguma luz, pelo
menos, para tentarmos entender e melhor lidar com
esse mal-estar que inquieta a humanidade, já que a
sua superação ainda parece muito distante.
RIOS NETO, Antônio Sales. Impasses civilizacionais. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/impasses-civilizacionais. Acesso em: 8 dez. 2022. Adaptado.
Segundo as ideias do articulista, as causas responsáveis pelo mal-estar da humanidade, resultantes das mais variadas consequências, estão, implicitamente, relacionadas com
I. o grande contingente de pessoas acometidas pela fome, desemprego, desastre ambientais e doenças crônicas.
II. a falta de manutenção da biodiversidade do planeta, de uma prática espiritual e de questões de natureza política.
III. a crise de valores ético-morais sem precedentes na nossa história da humanidade.
IV. a necessidade de reinvenção, a partir de saberes acumulados, respeitando princípios indispensáveis para a sobrevivência humana.
V. a incapacidade humana de aprender com as dificuldades vivenciadas ao longo da humanidade.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a