TEXTO:
A arte de desenhar pessoas
Na última semana, pesquisadores chineses
editaram, pela primeira vez, genes de embriões humanos.
A prática levanta questões éticas fundamentais. A
principal: é seguro criar mutantes cujas sequências
[5] genéticas são selecionadas em laboratório e, assim,
desafiar a natureza?
Em um laboratório de cidade chinesa de
Guangzhou foram criados os primeiros embriões
humanos geneticamente modificados. Em tubos de
[10] ensaio, pesquisadores da Universidade Sun Yeat−\sen
manipularam o DNA das células para apagar o gene da
beta talassemia, doença hereditária que origina anemias
graves e pode ser fatal. É a primeira vez na história que
a ciência intervém nas próximas gerações humanas de
[15] modo tão rápido e direto. Os chineses mostraram ao
mundo que, em poucos anos, teremos o poder de
modificar nossa espécie de maneira irreversível — para
o bem ou para o mal. O que fará com que a interferência
humana supere de vez o processo de seleção natural.
[20] Não seria mais a natureza, mas os cientistas, que
definiria como viriam a ser as futuras gerações de
animais, plantas e indivíduos.
O estudo com os detalhes do experimento,
publicado em 18 de abril na obscura revista Protein &
[25] Cell, revelou que apenas uma mínima fração dos
embriões foi bem-sucedida na manipulação. O resultado
foi um “mosaico genético”, ou seja, o DNA apresentou
várias alterações que não as visadas pelos cientistas.
Para esses primeiros estágios das células, isso pode
[30] ser mortal. No entanto, de acordo com os especialistas,
esse é um obstáculo que está prestes a ser superado.
Com o avanço das pesquisas e da tecnologia, a técnica
será aperfeiçoada a ponto de possibilitar a edição
completa dos genes em embriões humanos.
[35] Esse é mais um indício de que vivemos um
momento crucial para o que alguns cientistas chamam
de Antropoceno, a era em que as ações humanas são
responsáveis pela alteração do planeta. Outra prova
recente: na última semana, cientistas da Universidade
[40] Harvard, nos Estados Unidos, inseriram o DNA do
mamute em células vivas de um elefante, tornando muito
próxima a volta do animal que foi, naturalmente, extinto.
O experimento dos cientistas chineses sugere que, em
um futuro próximo, além de intervir em espécies de
[45] animais e vegetais e escolher indiretamente algumas
características interessantes para nossa permanência
no globo, atuaremos de maneira certeira e definitiva na
seleção natural humana. A questão é se antes
superaremos as discussões éticas relativas à prática e
[50] se estamos preparados para suas consequências.
“É uma nova era para a biomedicina. Só que ainda
não se sabe se o esforço humano em controlar seu
destino genético causará benefícios ou danos”, definiu
o biomédico americano George Daley, da Universidade
[55] Harvard.
LOIOLA, RITA. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/ podemos-manipular-geneticamente-os-embrioes-humanos/. Acesso em: 03 nov. 2015.
Infere-se das ideias do texto que a manipulação genética de embriões humanos é um avanço incontestável que