TEXTO:
Três horas depois, cerca de cinquenta convivas
sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte;
era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto
obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a
[5] casta, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a
esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo,
divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos
olhos duas estrelas segundo a versão modesta
de Crispim Soares e dois sóis no conceito de um
[10] vereador. O alienista ouviu essas coisas um tanto
enfastiado, mas sem visível impaciência. Quando
muito, dizia ao ouvido da mulher que a retórica
permitia tais arrojos sem significação. D. Evarista
fazia esforços para aderir a esta opinião do marido;
[15] mas, ainda descontando três quartas partes das
louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a
alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito,
rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado,
curtido de namoros e aventuras, declamou um
[20] discurso em que o nascimento de D. Evarista era
explicado pelo mais singular dos reptos. “Deus, disse
ele, depois de dar o universo ao homem e à mulher,
esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o
orador arrastava triunfalmente esta frase de uma
[25] ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e
criou D. Evarista.”
D. Evarista baixou os olhos com exemplar
modéstia. Duas senhoras, achando a cortesanice
excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do
[30] dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista
pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e
provavelmente de sangue.
ASSIS, Machado de. O alienista. 8. ed., São Paulo: Ática, 1951. p. 27-8. (Série Bom Livro).
Em relação ao fragmento destacado, está improcedente o que se afirma em