Leia o texto a seguir, extraído do conto “Legião estrangeira”, e responda à questão.
Foi quando me pareceu que de repente tudo parara. Sentindo falta do suplício, olhei-a enevoada. Ofélia
Maria estava de cabeça a prumo, com os cachos inteiramente imobilizados.
– Que é isso, disse.
– Isso o quê?
– Isso! disse inflexível.
– Isso?
Ficaríamos indefinidamente numa roda de “isso”, não fosse a força excepcional daquela criança, que, sem uma palavra, apenas com a extrema autoridade do olhar, me obrigasse a ouvir o que ela própria ouvia. No silêncio da atenção a que ela me forçara, ouvi finalmente o fraco piar do pinto na cozinha.
– É o pinto.
– Pinto? disse desconfiadíssima.
– Comprei um pinto, respondi resignada.
– Pinto! repetiu como se eu a tivesse insultado.
– Pinto.
E nisso ficaríamos. Não fosse certa coisa que vi e que antes nunca vira. O que era? Mas, o que fosse, não estava mais ali. Um pinto faiscara um segundo em seus olhos e neles submergira para nunca ter existido. E a sombra se fizera. Uma sombra profunda cobrindo a terra. Do instante em que involuntariamente sua boca estremecendo quase pensara “eu também quero”, desse instante a escuridão se adensara no fundo dos olhos num desejo retrátil que, se tocassem, mais se fecharia como folha de dormideira. E que recuava diante do impossível, o impossível que se aproximara e, em tentação, fora quase dela: o escuro dos olhos vacilou como um ouro.
(LISPECTOR, C. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.72-73.)
A partir da leitura do texto, assinale a alternativa correta.