§1º Prezado amigo: sobre o julgamento que você me pede a respeito do valor da Literatura Brasileira, não há melhor referência que o mestre Antonio Candido: “Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós.” Quanto ao fato de você afirmar que a nossa literatura é irreal e fantasiosa, cito Vargas Llosa, para quem “as mentiras da literatura são também um precioso veículo para o conhecimento de verdades profundas da realidade humana. Essas verdades não são sempre encantadoras; às vezes, o semblante que se delineia no espelho que os romances e poemas nos oferecem de nós mesmos é o de um monstro”.
§2º O que você me diz, por exemplo, daquele conto, em forma de depoimento, em que o réu explica: “Isso aí, chefia. O que a gente pede é um pouco de conforto lá dentro. Assim não tem condição de ficar, não. Tá vertendo água das paredes. Não pode falar nadinha que leva porrada.”? E, aquele outro, desenvolvido em forma de uma carta ao marido, em que o autor explora um de seus temas favoritos, as mazelas do inferno conjugal? Você dirá que os contos desse autor são apenas fantasias?
§3º Veja, por outro ângulo, aquele escritor que, segundo o moçambicano Mia Couto, “fez pela projeção da nação brasileira mais do que todas as instituições diplomáticas juntas”. Tal escritor cria um universo bem brasileiro, permeado por heranças culturais africanas. São histórias de lutas pela posse de terras, de assassinatos, de caxixes, de fraudes e negociatas, enfim, da região cacaueira de “terra adubada com sangue”.
§4º O que dizer, então, daquele contista regional que, após explorar o paradoxo entre o homem animalizado e o animal – “perseverando na fidelidade e portador das verdadeiras qualidades humanas” – conclui assim seu conto: “Cuê-pucha!... é mesmo bicho mau, o homem!”? Repare, também, na passagem daquele conto, publicado no final do século XIX, espécie de ironia à política, bem apropriado à modernidade: “Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças”. Por outro lado, pense na beleza do conto “Luas-de-Mel”, cuja história, referente à chegada de um casal de namorados, fugidos da família para se casarem, propicia um desenrolar tão inovador que, além de justificar o próprio título, revela-se deslumbrante na linguagem.
§5º E, já que ainda estamos imersos em Copa do Mundo, observe como este poeta definiu nossa paixão pelo futebol: “De repente o Brasil ficou unido/ contente de existir, trocando a morte/ o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste/ por um momento puro de grandeza/ e afirmação no esporte”. Observe, também, estes outros versos: “Oi, meu flavo canarinho,/ capricha nesse trilo/ tanto mais doce quanto mais tranquilo/ onde estiver Bellini ou Jairzinho,/ o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,/ e Pelé e Gilmar,/ qualquer dos que em Britânia conheceram/ depois da hora radiosa/ a hora dura do esporte/ sem a qual não há prêmio que conforte,/pois perder é tocar alguma coisa/mais além da vitória, é encontrar-se/ naquele ponto onde começa tudo/a nascer do perdido, lentamente.”
§6º Você afirma que nossos poetas são desleixados no ritmo e no metro. Discordo. Compare os poemas “Vila Rica”, de Olavo Bilac e “Ouro Preto”, de Manuel Bandeira. Ou então, reflita sobre a arte de Ariano Suassuna, na peça teatral O santo e a porca, em que o autor se apropria de um tipo de narrativa oral que tem os pés fincados na realidade brasileira, principalmente nordestina. E, se ainda não estiver convencido, lembre-se de que “Deus dá a todos uma estrela./ Uns fazem da estrela um sol./ Outros nem conseguem vê-la”.
§7º Caro amigo: espero ter colaborado para sua reflexão acerca do valor da Literatura Brasileira. Quanto a mim, continuarei a lê-la e a estimular sua leitura para que, “quando a Indesejada das gentes chegar”, eu não precise mais enfrentar aquele dilema existencial proposto por Cecília Meireles – “Ando à procura do espaço/ para o desenho da vida./ Em números me embaraço/ e perco sempre a medida./ Se penso encontrar saída,/ em vez de abrir um compasso,/ projeto-me num abraço/ e gero uma despedida” –, mas possa dizer como o saudoso Manuel Bandeira: “O meu dia foi bom, pode a noite descer./ (A noite com seus sortilégios.)/ Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar”.
Com base na leitura do §2º, assinale a alternativa INCORRETA.