E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da amizade e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia e segundo* o benquisto tapejara** Blau Nunes, desempenado arcabouço*** de oitenta e oito anos, todos os dentes, vista aguda e ouvido fino, mantendo o seu aprumo de furriel**** farroupilha, que foi, de Bento Gonçalves, e de marinheiro improvisado, em que deu baixa, ferido, de Tamandaré.
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E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias; dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das cousas que ele compreendia e das eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do pelo a pelo que com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau – moço, militar – e o Blau – velho, paisano –, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia –, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.
Querido digno velho!
Saudoso Blau!
Patrício, escuta-o.
*segundo: auxiliar ou companheiro de confiança de alguém
**tapejara: indivíduo habilidoso, valente e que conhece bem o território [baqueano ou vaqueano]
***arcabouço: esqueleto, armação dos ossos do corpo humano ou de qualquer animal; por derivação e em sentido figurado: preparo, envergadura
****furriel: designação militar antiga de posto superior a cabo e inferior a sargento
Em relação ao tempo-espaço narrativos, assinale a alternativa incorreta.