Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho com o tormento,
Para que seus enganos não dissesse
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Luís de Camões
Disponível em: http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v307.txt Acesso em 30 abr. 2017.
Luís de Camões é um dos principais poetas da língua portuguesa. Sua obra "Os Lusíadas" é considerada um tributo às letras lusitanas. Além de ter escrito esse grande épico dos portugueses, Camões também produziu sonetos, nos quais evidenciava sua filiação ao período quinhentista europeu. Quanto ao soneto acima, publicado pela primeira vez em 1595, pode-se afirmar que evidencia as seguintes questões:
I – o eu lírico está apaixonado e pretende, com seus versos, fazer a exaltação da figura de sua amada, mulher de grande formosura;
II – ao tratar do tema amor, o eu lírico apresenta dois momentos de sua trajetória: o passado, no qual era feliz; e o presente, no qual se torna desconfiado;
III – conforme o entendimento do eu lírico, os sujeitos, depois que conhecem o amor, passam a compreender os versos que ele escreve.
Sobre as proposições acima, pode-se afirmar que