– Lampiãããããão morreeeu!...
Apanhado de susto, no papoco da notícia que acaba de atroar, Coriolano estremece de coração em rebates pegando a boca do peito. Freme-lhe o couro, esbarra a costura da chinela e apura as ouças de faro aguçado, espichando o pescoço pra fora da cacunda. Será, meu Pai do Céu, que o Herodes, enfim, desencarnou? Não, não pode ser! Na certa isto é capricho da idade! É o tal zumbido que se arranchou nos miolos, fazendo desta cabeça uma casa de mangangá, a ponto de me rodar o juízo desmareado, que bem carece umas cunhas pra não ficar assim tão bambeadeiro. Ou vá ver que é algum moleque me fazendo caçoada! Da mão imóvel e suspensa, pende e oscila a linha de pau dependurada no fundo da agulha, regulando ser uma cobra se retorcendo aumentada na sombra do candeeiro. Sequer os olhinhos se mexem, tal um cachorro sutil de focinho pegando o vento. Furando a escuridão lá de fora, relampeia aqui dentro a mesma voz: morreu o peste cego! Ouvira bem? Trafega-lhe no corpo um arrepio. Fora mesmo esse fio de mel que escorrera da zoada pra lhe adoçar as entranhas? Tomara, santo Deus, tomara! E sem ter mão de si, desgovernado numa vertigem sem qualquer ação, Coriolano larga a linha pra uma banda e pula do banquinho a rosnar vitoriado:
– Toma lá, satana dos infernos!
DANTAS, Francisco J. C. Os desvalidos. 3. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 13.
A respeito do romance Os desvalidos, está correto o que se afirma na alternativa