O ensino na Bruzundanga
[1] Já vos falei na nobreza doutoral desse país: é lógico, portanto, que vos fale do ensino que é
[2] ministrado nas suas escolas, donde se origina essa nobreza. Há diversas espécies de escolas,
[3] mantidas pelo governo geral, pelos governos provinciais e por particulares. Essas últimas são
[4] chamadas livres e as outras oficiais, mas todas elas são equiparadas entre si e seus diplomas se
[5] equivalem. Os meninos ou rapazes, que se destinam a elas, não têm medo absolutamente das
[6] dificuldades que o curso de qualquer delas possa apresentar. Do que eles têm medo, é dos
[7] exames preliminares. De forma que os filhos dos poderosos fazem os pais desdobrar banca de
[8] exames, pôr em certas mesas pessoas suas, conseguindo aprovar os pequenos em aritmética sem
[9] que ao menos saibam somar frações, outros em francês sem que possam traduzir o mais fácil
[10] autor. Com tais manobras, conseguem sair-se da alhada e lá se vão, cinco ou seis anos depois,
[11] ocupar gordas sinecuras com a importância de “doutor”.
[12] Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó.
[13] Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República
[14] dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que
[15] quando para lá entraram. São esses tais que berram: “Sou formado! Está falando com um homem
[16] formado!”
[17] Ou senão quando alguém lhes diz: “Fulano é inteligente, ilustrado...”, acode o homenzinho
[18] logo:
[19] - É formado?
[20] - Não.
[21] - Ahn!
[22] Raciocina ele muito bem. Em tal terra, quem não arranja um título como ele obteve o seu,
[23] deve ser muito burro, naturalmente.
[24] Há outros, espertos e menos poderosos, que empregam o seguinte truque. Sabem por
[25] exemplo, que, na província das Jazidas, os exames de matemática elementar são mais fáceis. Que
[26] fazem eles? Inscrevem-se nos exames de lá, partem e voltam com as certidões de aprovação.
[27] Continuam eles nessas manobras durante o curso superior. Em tal Escola são mais fáceis
[28] os exames de tais matérias. Lá vão eles para tal escola, frequentam o ano, decoram os pontos,
[29] prestam ato e, logo aprovados, voltam correndo para escola ou faculdade mais famosa, a fim de
[30] receberem o grau. O ensino superior fascina todos na Bruzundanga. Os seus títulos, como sabeis,
[31] dão tantos privilégios, tantas regalias, que pobres e ricos correm para ele. Mas só são três
[32] espécies que suscitam esse entusiasmo: o de médico, o de advogado e o de engenheiro.
[33] Houve quem pensasse em torná-los mais caros, a fim de evitar a pletora de doutores. Seria
[34] um erro, pois daria o monopólio aos ricos e afastaria as verdadeiras vocações. De resto, é sabido
[35] que os lentes das escolas daquele país são todos relacionados, têm negócios com potentados
[36] financeiros e industriais do país e quase nunca lhes reprovam os filhos.
[37] Extinguir-se as escolas seria um absurdo, pois seria entregar esse ensino a seitas
[38] religiosas, que tomariam conta dele, mantendo-lhe o prestígio na opinião e na sociedade.
[39] Apesar de não ser da Bruzundanga, eu me interesso muito por ela, pois lá passei uma
[40] grande parte da minha meninice e mocidade.
[41] Meditei muito sobre os seus problemas e creio que achei o remédio para esse mal que é
[42] seu ensino. Vou explicar-me sucintamente.
[43] O estado Bruzundanga, de acordo com sua carta constitucional, declararia livre o exercício
[44] de qualquer profissão, extinguindo todo e qualquer privilégio de diploma.
[45] Feito isso, declararia também extintas as atuais faculdades e escolas que mantém.
[46] Substituiria o tal ensino seriado, reminiscência da Idade Média, onde no trivium, se
[47] misturava a gramática com a dialética e, no quadrivium, a astronomia e a geometria com a música,
[48] pelo ensino isolado de matérias, professadas pelos atuais lentes, com os seus preparadores e
[49] laboratórios.
[50] Quem quisesse estudar medicina, frequentaria as cadeiras necessárias à especialidade a
[51] que se destinasse, evitando as disciplinas que julgasse inúteis.
[52] Aquele que tivesse vocação para engenheiro de estrada de ferro, não precisava estar
[53 perdendo tempo estudando hidráulica. Frequentaria tão somente as cadeiras de que precisasse,
[54] tanto mais que há engenheiros que precisam saber disciplinas que até bem pouco só se exigiam
[55] dos médicos, tais como os sanitários; médicos – os higienistas – que têm de atender a dados de
[56] construção, etc.; e advogados a estudos de medicina legal.
[57] Cada qual organizaria o programa do curso, de acordo com a especialidade da profissão
[58] liberal que quisesse exercer, com toda a honestidade e sem as escoras de privilégio ou diploma
[59] todo-poderoso.
[60] Semelhante forma de ensino, evitando o diploma e os seus privilégios, extinguiria a nobreza
[61] doutoral; e daria aos jovens da Bruzundanga mais honestidade no estudo, mais segurança nas
[62] profissões que fossem exercer, com a força que vem da coerência entre homens de valor e
[63] inteligência nas carreiras que seguem.
[64] Eu não suponho, não tenho a ilusão que alguém tome a sério semelhante idéia.
[65] Mas desejava bem que os Bruzundangas a tomassem, para que mais tarde não tenham que
[66] se arrepender.
[67] A nobreza doutoral, lá, está se fazendo aos poucos irritante, e até sendo hereditária.
[68] Querem ver? Quando por lá andei, ouvi entre rapazes este curto diálogo:
[69] - Mas T. foi reprovado?
[70] - Foi.
[71] - Como? Pois é filho de Dr. F?
[72] Os pais mesmo têm essa idéia; as mães também; as irmãs da mesma forma, de modo a só
[73] desejarem casar-se com os doutores. Estes vão ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras,
[74] pois o povo admite isto e o tem achado justo até agora. Há algumas famílias que são de
[75] verdadeiros Polignacs doutorais. Ao lado, porém, delas vai se formando outra corrente, mais ativa,
[76] mais consciente da injustiça que sofre, mais inteligente, que, pouco a pouco, há de tirar do povo a
[77] ilusão doutoral.
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Pp 58/61
“Estes vão ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras, pois o povo admite isto e o tem achado justo até agora”. (linhas 73 e 74) O termo destacado pode ser substituído, sem alterar o sentido, por: