Iniciada em Uberlândia, em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de ocupar a região central do Brasil, a Expedição Roncador Xingu faz contato com os xavantes. Até então, as relações desse povo com os brancos não haviam sido pacíficas – o coronel britânico Percy Harrison Fawcet desaparecera nos anos 20 quando tentava aproximar-se dele. À frente do grupo, os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas ganham a confiança do cacique depois de oferecerem uma miríade de objetos brilhantes. Corta. Em 1974, ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Mato Grosso, Orlando diria: “Não nos seria possível analisar em profundidade o intrincado problema do relacionamento entre a sociedade nacional e as etnias indígenas, nem mesmo as desastrosas consequências advindas desse contato (...). Excluídos alguns êxitos parciais ou momentâneos, tudo quanto se fez até agora resultou em malogro. O decréscimo da população indígena, o desaparecimento de 98 tribos na primeira metade deste século e as frentes de penetração, que, valendo-se das novas rodovias, assediam e ameaçam a sobrevivência de muitas tribos, são suficientes para nos dispensar de maiores comentários a respeito do desacerto da política indigenista brasileira.”
(...)
Antídoto e veneno
Não seria exagero afirmar que o maior desafio dos Villas Bôas tenha sido menos de ordem prática e mais ligado a questões éticas e ideológicas. Num surto de gripe que dizimou uma aldeia, os irmãos se deram conta de que, ao tentar proteger os índios, traziam-lhes riscos. Ao mesmo tempo que lutavam para lhes garantir a posse de terras (o que culminaria com a criação do Parque do Xingu), contribuíam para expulsá-los de seus territórios. “Somos o antídoto e o veneno”, constata Cláudio, num dado momento do filme. O diretor de arte Cassio Amarante parece compartilhar desse triste paradoxo ao refletir sobre o próprio trabalho: “A gente é igual a Pedro Álvares Cabral com sua camisa bufante: vamos ao Xingu com calça Osklen e tênis Nike. Não passo de um centurião romano querendo me aproveitar dos gauleses”.
MONTEIRO, Lúcia. Calça Osklen e tênis Nike no Xingu. Revista BRAVO! Abril/2012 (adaptado).
Assinale a opção cuja expressão entre parênteses NÃO pode substituir o termo destacado.