TEMPO PERDIDO
Pesquisa sobre nível de alunos no ensino básico mostra desigualdade
alarmante entre escolas públicas e particulares
[P.1] Depois de três anos na escola, a maioria das crianças brasileiras não sabe calcular o troco, desconhece a diferença entre um triângulo e um retângulo, não identifica o tema de um texto simples e é incapaz de ler as horas.
[P.2] Ler as horas, diga-se de passagem, não num relógio comum. Seria exigir demais. A incapacidade se verifica diante do mostrador de um relógio digital.
[P.3] Tempo perdido, portanto: a frase, talvez excessivamente dramática, aplica-se ao que acontece nas salas de aula de grande parte das escolas do país, num período crucial para a aquisição de habilidades básicas na leitura, na escrita e na aritmética.
[P.4] É o resultado a que chegou uma pesquisa em 250 escolas brasileiras, públicas e particulares, realizada pelo movimento Todos pela Educação. A chamada Prova ABC avaliou 6.000 alunos que concluíram o 3.º ano (antiga 2.ª série) do Ensino Fundamental, em todas as capitais do país. São crianças que em geral têm 8 anos de idade.
[P.5] Mais do que as deficiências substantivas constatadas na pesquisa, é o abismo entre alunos de escolas públicas e particulares o que chama a atenção.
[P.6] Nas escolas pagas, 3/4 das crianças atingiram os resultados esperados em matemática; a porcentagem reduziu-se a 43% entre os alunos da rede pública. Disparidades gritantes também se manifestaram nos testes de leitura (79% contra 49%) e de escrita (82% contra 53%).
[P.7] Há também diferenças conforme as regiões do país. No Sudeste e no Sul, o índice de desempenho satisfatório dos alunos é superior (respectivamente, 63% e 64%) ao do Nordeste (43%) e ao da região Norte (44%).
[P.8] Em todas as partes do país, entretanto, o hiato entre escola pública e privada constitui o dado mais impressionante da pesquisa.
[P.9] Apenas um exemplo. Na região Sudeste, 81% dos alunos de escolas particulares foram bem em matemática. Na rede pública, a proporção cai para 37%.
[P.10] Confirma-se, é claro, a constatação de que o Brasil tarda a enfrentar o desafio que se segue ao processo, bem-sucedido, de universalização do ensino básico. Garantido o acesso ao Ensino Fundamental, falta fazer com que se torne, de fato, ensino.
[P.11] Não é apenas o aluno que marca passo, diante do absenteísmo e da má remuneração dos professores, da carência de material escolar e de orientação pedagógica adequada. É o país inteiro, que se gaba de avançar rumo ao grupo das potências econômicas mundiais, que arrasta, no plano da qualificação da mão de obra e da formação dos cidadãos, o peso de seu passado.
Folha de S. Paulo, 28 de agosto de 2011.
Em um texto de opinião nem sempre os pensamentos do autor sobre o tema estão explícitos em construções com a 1.ª pessoa, como "eu penso", "eu percebo", mas também são facilmente demonstradas pela escolha de vocabulário. Assim, é possível afirmar que são expressões caracterizadoras que revelam opinião do autor.