TEXTO
Não nos parece uma tarefa fácil conciliar desejos (que geralmente são ilimitados e odeiam
controles) e a questão fundamental de cumprir regras, seguir leis e construir espaços públicos
seguros e igualitários, válidos para todos, numa sociedade que também tem o seu lado claramente
aristocrático e hierárquico. Um sistema que ama a democracia, mas também gosta de usar o “Você
[5] sabe com quem está falando?”. O nosso amor simultâneo pela igualdade e, a seu lado, o nosso
afeto pelo familismo e pelo partidarismo governados pela ética de condescendência1 tão nossa
conhecida, que diz: nós somos diferentes e temos biografia; para os amigos tudo, aos inimigos (e
estranhos, os que não conhecemos) a lei!
O resultado dessa tomada de posição, básica numa democracia, é simples, mas muitas vezes
[10] ignorado entre nós: a minha liberdade teoricamente ilimitada tem de se ajustar à sua, e as duas
acabam promovendo uma conformidade voluntária com limites, com fronteiras cívicas que não
podem ser ultrapassadas, como a de furar a fila ou a de dar uma carteirada.
Na sua simplicidade, a fila é um dos melhores, se não for o melhor, exemplos de como operam
os limites numa democracia. Seus princípios são simples e reveladores: quem chega primeiro é
[15] atendido em primeiro lugar. Numa fila, portanto, não vale o oculto. Ou temos uma clara linha de
pessoas, umas atrás das outras, ou a vaca vai para o brejo. Quando eu era menino, lembro-me
bem de como era impossível ter uma fila no Brasil. As velhas senhoras e as pessoas importantes
(sobretudo os políticos) não se conformavam com suas regras e traziam como argumento para
serem atendidos, passando na frente dos outros, ou a idade, ou o cargo, ou conhecimento com
[20] quem estava atendendo, ou algum laço de família. Hoje, sabemos que idosos e deficientes não
entram em fila. Mas estamos igualmente alertas para o fato de que um cargo ou um laço de amizade
não faz de alguém um supercidadão com poderes ilimitados junto aos que estão penando numa
fila por algumas horas.
Do mesmo modo e pela mesma lógica, ninguém pode ser sempre o primeiro da fila (e nem o
[25] último), como ninguém pode ser campeão para sempre. Se isso acontece, ou seja, se um time
campeão mudar as regras para ser campeão para sempre, então o futebol vai pros quintos dos
infernos. Ele simplesmente acaba com o jogo como uma disputa. Na disputa, o adversário não é um
inimigo; numa fila, quem está na frente não é um superior. O poder ilimitado e congelado ou fixo
em pessoas ou partidos, como ocorre nas ditaduras, liquida a democracia justamente porque ele
usurpa2 os limites nos quais se baseia a fila.
ROBERTO DA MATTA Adaptado de revistatrip.uol.com.br.
1 condescendência − tolerância com algo censurável 2 usurpar − apossar-se
A palavra “como” é empregada no texto para estabelecer diferentes relações de sentido.
O fragmento em que essa palavra indica comparação é: