Na Grécia Antiga, onde os homens se encarregavam da política, da filosofia e das artes, consideradas áreas honradas, as mulheres desempenhavam o papel considerado inferior de cuidar dos afazeres domésticos e, sobretudo, de cuidar das crianças e dos idosos da família. Atualmente, no entanto, a conjuntura se assemelha ao momento histórico supracitado, visto que o trabalho feminino que se resume à casa e aos cuidados da família ainda é desvalorizado na sociedade. Dessa forma, é imprescindível combater a invisibilidade do trabalho de cuidado feito pela mulher no Brasil, destacando a desigualdade de gênero e a displicência estatal como principais entraves nesse objetivo.
Em primeiro plano, compreende-se que o desequilíbrio de gênero é determinante para que a problemática perdure, uma vez que a figura masculina é mais valorizada em detrimento da figura feminina, principalmente no que tange aos trabalhos realizados por cada um. Junto a isso, a luta feminina por visibilidade atravessa séculos, dado que a realidade desigual proveniente da Grécia Antiga reflete os dias atuais, em que não é dada a devida importância ao afazer doméstico e ao cuidado parental desempenhados pela mulher, em virtude de discursos errôneos de gênero que pregam superioridade masculina. Para mais, segundo o teórico político Jean-Jacques Rousseau, "a desigualdade é a fonte primária de todos os males sociais". Analogamente, os abismos de assimetria de gênero existentes na comunidade aumentam a invisibilidade do trabalho feminino e, assim, devem ser combatidos para atenuar a chaga.
Além disso, vale ressaltar a inoperância estatal em valorizar e, consequentemente, visibilizar o papel de cuidado feito por mulheres. No mais, o filósofo inglês John Locke destaca, em seu "Contrato Social", que é dever do Estado assegurar os direitos e o bem-estar coletivo. Correlatadamente, apesar da Constituição Federal afirmar atribuições a respeito da igualdade de todos, o que se observa diante do contexto de desvalorização do trabalho parental e doméstico realizado pela figura feminina por causa da desigualdade de gênero, é a falta de eficácia nessa garantia, configurando uma quebra constitucional e, ainda, do Contrato de Locke. Logo, sendo o Estado promotor do bem-estar de todos igualmente, é ilógico colocar a situação da invisibilidade da mulher em segundo plano.