Leia o trecho de Marajó, considerado importante documento modernista, para responder à questão proposta:
Seu Nelson naquela noite estava na rede com as dores do reumatismo. O enterro passara e ficara um cheiro no ar, o cheiro do antigo tempo. Seu filho só lhe mandava pedir dinheiro. Não tinha uma filha para lhe dar um beijo, lhe dizer — papai — lhe pentear os cabelos brancos. Uma coisa queria fazer: Não pensar naquela mulher de mais ínfima categoria. Revirava-se na rede. As dores aumentavam. Nem no nome dela. Suando com um tremor deixava escorrer da língua, como baba, um palavrão surdo, azedava na garganta, no coração. No quarto, o retrato de sua mulher com o penteado alto, o colo cheio, olhava-o fixamente do antigo tempo. Nada de mais havia então naquele olhar, subia do guarda roupa aberto o cheiro das roupas de Marta. O espelho grande encostado à parede lembrava-lhe aquela noite em que encontrou Marta toda nua, se mirando. Agora, reprimiu a custo um doido impulso de espedaçá-lo. Também diante daquele espelho, vinha a louca, tão mansa, contemplar-se e dizer: — Essa mulher do espelho é que me traz os recados dos peixes.
(JURANDIR, Dalcídio. Marajó.3ª ed. Belém: CEJUP, 1992.)
Dalcídio Jurandir, autor modernista, ao escrever Marajó (1947) faz uso de alguns recursos de linguagem que marcaram o seu estilo.
No trecho destaca-se o(a):