TEXTO:
[...] Num país onde o poder se reforma,
transforma, renova, mas nunca muda, trocam-se
apenas os reis ou presidentes, o resto fica.
Em suas duas últimas aparições, como Getúlio
[5] Vargas e seu vice, João Pessoa, o Velho havia sido
baleado e quase morto. Na certa, depois disso,
escolhera alguém mais discreto. Um político
profissional, do tipo que não quer ficar em evidência,
mas que passa a vida toda junto ao poder.
[10] Nem um empresário, que possa falir, nem um
articulador político, a quem podem tirar o apoio, nem
um condutor de massas que venha a se tornar
indesejável. Não, ninguém importante demais que
precise ser eliminado quando a situação vira.
[15] Antônio trancou-se em sua cobertura e começou
a trabalhar. Quatro civis já haviam passado pela
Presidência, combatendo e criando uma inflação
galopante, e deixando algumas palavras em evidência,
como “pacote econômico”, “choque heterodoxo”,
[20] “moratória”, “ajuste fiscal”, “arrocho salarial” e “lavagem
de dinheiro”. [...]
Usando o computador [...] arquivou todas as fotos
de solenidades do governo desde 1950 e passou
semanas analisando do cada uma delas.
[25] E então um personagem se destacou.
Lá estava ele, em todas, sempre um pouco atrás,
alto e magro, como um vampiro. Seu ar era sinistro.
Participara de todos os governos. Era católico
praticante, o que no Brasil sempre foi um bom álibi
[30] para se cometer as maiores baixarias, e ideal para
esconder uma alma de vampiro.
JAF, Ivan. O vampiro que descobriu o Brasil. 6ª ed. São Paulo: Ática, 2007, p. 104-105. (Memórias de sangue).
O excerto de O vampiro que descobriu o Brasil, de Ivan Jaf, contrextualizado na narrativa que constitui o livro citado, evidencia