Um minicérebro é um conjunto de células
neuronais criado em laboratório – para que o cientista
possa simular (e estudar) as reações de um cérebro
real sem ter de abrir a cabeça de alguém.
[05] Células são pacotinhos microscópicos de
consistência oleosa no interior dos quais ocorrem
reações bioquímicas que chamamos de vida. Seres
simples, como as bactérias, consistem em uma única
célula. Seres complexos, como você, são aglomerados
[10] de 37,2 trilhões de células. 37,2 trilhões é o número de
segundos que se passaram desde que o homo erectus,
um ancestral remoto do ser humano, saiu da África
pela primeira vez e deu origem aos neandertais.
primeira vez e deu origem aos neandertais.
Células não têm consciência, ambições ou
[15] desejos, o que torna especialmente assustador o fato
de que cada uma delas sabe exatamente o que fazer
para construir e operar seu corpo. Desde o dia em que
você foi concebido, todas começam como células-
troncos embrionárias, com potencial para exercer
[20] qualquer função. Conforme se multiplicam, algumas
tiram a sorte grande e se especializam para gerar seu
coração. Outras se relegam resilientemente ao papel
de vesícula biliar. Elas sabem o que fazer, porque cada
uma contém, em seu núcleo, uma cópia completa do
[25] seu genoma – o manual de instruções que dá o passo
a passo para montar um ser humano.
O processo de transformar uma célula em outra
é chamado de reprogramação celular. Alysson Muotri
tornou-se um ninja da reprogramação. E foi o primeiro
[30] que teve a ideia de usá-la para criar células
propositalmente doentes para então tentar curá-las e
descobrir novos remédios no processo. Um conjunto
de neurônios tem nome: cérebro. Muotri passou a
construir minicérebros.
Cada um deles é um punhado de neurônios do
tamanho de uma ervilha. Sua função é ser uma
maquete viva. O minicérebro, até onde sabemos, não
é grande nem complexo o suficiente para manifestar
consciência. E também não se especializa: ao contrário
[40] das repartições de um cérebro real, que se dedicam a
falar, armazenar memórias ou interpretar estímulos
visuais, o minicérebro é uma folha em branco: pode
ser o que Muotri quiser, basta estimulá-lo para tal. Com
eles, os testes clínicos ficam mais rápidos, e as drogas
[45] chegam mais cedo ao mercado.
Em 2005, Muotri e seu orientador, Fred Gage,
descobriram que, enquanto um bebê se desenvolve
no útero – ou mesmo depois, na vida adulta –,
pedacinhos de DNA chamados “genes saltadores”
[50] vagam sem rumo no núcleo das células que compõem
o cérebro, copiando e colando a si próprios. Eles
embaralham o genoma em diversos pontos, alterando
ligeiramente (às vezes radicalmente) a atividade de
cada uma das células. O embaralhamento do genoma
[55] por genes saltadores garante que cada cérebro seja
único. E esse pode ter sido o grande segredo para a
humanidade ter chegado até aqui. Sem isso, talvez o
homo sapiens não tivesse colonizado quase todos os
ambientes do planeta.
O CRIADOR de cérebros. Revista Superinteressante. São Paulo: Abril, ed. 395, nov. 2018.
Observa-se que o texto apresenta uma linguagem denotativa, sem uso de termos técnicos, facilitando a compreensão da mensagem
Outra estratégia, utilizada pelo autor, para alcançar ainda mais seu objetivo, está explicitada em