Leia o seguinte fragmento do poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo, de 1945, de Carlos Drummond de Andrade.
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 14.
Agora, leia o soneto “Fraga e sombra”, do livro Claro enigma, de 1951, do mesmo autor.
A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.
Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.
Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.
E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 47.
Agora, leia o soneto “Fraga e sombra”, do livro Claro enigma, de 1951, do mesmo autor.
A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.
Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.
Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.
E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 47.
Com base nesses poemas, considere as seguintes assertivas a respeito do livro Claro enigma.
I. No segundo poema, representativo da linha poética assumida por Claro enigma, percebe-se que o poeta, ao escolher uma forma fixa, o soneto, e segui-la rigorosamente, renega os princípios do Modernismo que pautaram seus primeiros livros e ainda pautava A rosa do povo.
II. Os poemas em geral de Claro enigma, e esse em particular, revelam um certo influxo da Geração de 45, mais formal e afeita às formas fixas, sobre a poesia de Drummond.
III. O soneto é o único poema em forma fixa que não foi afetado pelos ataques dos modernistas, passando relativamente incólume pelas fases do Modernismo, como “Fraga e sombra” o demonstra.
IV. Ao contrário de A rosa do povo, livro mais colado aos acontecimentos e de viés engajado, Claro enigma é um livro cujos poemas mergulham mais profundamente em questões metafísicas e atemporais; os poemas anteriores exemplificam essa guinada.
V. Se no primeiro poema há uma “náusea” em relação ao tempo (“o relógio da torre”), no segundo esse “confrangimento” se manifesta em relação a coisas mais concretas (“a luz crepuscular. Um sino que toca”, o mar, a serra etc.).
IV. Ao contrário de A rosa do povo, livro mais colado aos acontecimentos e de viés engajado, Claro enigma é um livro cujos poemas mergulham mais profundamente em questões metafísicas e atemporais; os poemas anteriores exemplificam essa guinada.
V. Se no primeiro poema há uma “náusea” em relação ao tempo (“o relógio da torre”), no segundo esse “confrangimento” se manifesta em relação a coisas mais concretas (“a luz crepuscular. Um sino que toca”, o mar, a serra etc.).
Está CORRETO somente o que é afirmado em