TEXTO
Por que escrevemos?
Não é fácil enumerar todos os motivos pelos quais escrevemos. Tantos são eles. Na verdade, escrevemos por muitas e muitas razões. Mas todos os motivos particulares pelos quais escrevemos podem ser explicados por uma razão geral: escrevemos para resolver problemas que a fala, a linguagem oral, não consegue resolver. Podemos até dizer que o homem inventou a escrita, há milhares de anos, quando só a conversa não conseguia dar conta de todas as suas necessidades.
Começava – naquele momento genial em que um antepassado nosso resolveu “desenhar” algum sinal na pedra para representar uma ideia ou um som –, uma viagem de séculos que haveria de mudar completamente a face da vida humana, para o bem ou para o mal. A escrita já nasceu com mil utilidades: anotar as encomendas de compra e venda dos povos comerciantes, registrar os fatos que aconteciam e inventar outros que explicassem o que acontecia, escrever palavras sagradas para representar deuses e reis, filosofar sobre a vida e o mundo e, é claro, mandar recados! Nas guerras entre os povos antigos, por exemplo, tão importante quanto as armas, era o sistema de comunicação entre os exércitos com os mensageiros trazendo e levando cartas dos generais.
A invenção da escrita foi um sucesso absoluto: veio para ficar e se espalhar pelo mundo e foi uma arma poderosíssima nas mãos dos povos que a dominavam, de tal forma que, hoje, os povos que não dispõem dela dependem da escrita dos outros para sobreviverem. E, mesmo dentro de países civilizados, o cidadão que não sabe escrever também depende dos que sabem.
O domínio da escrita é tão importante que, durante séculos, só se permitia que uma pequeníssima parcela da sociedade aprendesse a ler e a escrever. Escrever era uma questão social, política ou religiosa: só pessoas de determinadas classes ou castas tinham esse direito, exercido sempre sob estrito controle. Não só não era qualquer um que escrevia, como os que escreviam não podiam escrever qualquer coisa. Mesmo depois da invenção da imprensa, por Gutemberg, já no fim da Idade Média, que popularizou extraordinariamente os livros (antes escritos a mão), a escrita continuava restrita a uma pequena faixa da população, enquanto a vigilância sobre o que se escrevia aumentava.
Porém, nenhuma vigilância conseguiu segurar a popularidade da escrita, de modo que, hoje, a sua absoluta democratização é exigência fundamental da sobrevivência dos valores – e da produção de riquezas – da civilização. Apesar de tudo, continuamos “vigiados”. O nosso criativo inventor que esculpiu a primeira letra na pedra, hoje, teria de ir à escola, aprender como se grafa certo, que palavras devem levar acento, o que é a crase etc.
O fato é que a invenção deu certo. Tente por um segundo imaginar o mundo sem palavras escritas. Dá para imaginar, mas seria um outro mundo, diferente do nosso sob muitos aspectos.
(Faraco, Carlos Alberto; Tezza, Cristóvão. Oficina de Texto. Petrópolis: Vozes, 2003, 9-11. Adaptado).
No fragmento do Texto: “a escrita continuava restrita a uma pequena faixa da população”, fica evidente a demonstração: