Meu filho, você não merece nada
[1] Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas
[2] casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a
[3] pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente
[4] não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste. […]
[5] Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom,
[6] naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para
[7] conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou,
[8] passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de
[9] seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu
[10] lugar no país.
[11] Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a
[12] crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida
[13] são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar
[14] garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um
[15] fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”. […]
[16] Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades
[17] e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é.
[18] Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter
[19] competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a
[20] própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver
[21] com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente
[22] grande. […]
BRUM, Eliane. Meu filho, você não merece nada. In: Revista Época, 11 jul. 2011.
Analise as afirmações a seguir:
I - Os vocábulos “têm” e “você” recebem acento gráfico com base na mesma regra.
II - Se a expressão “ao futuro” (linha 13) fosse substituída pela expressão “a vida”, haveria necessidade de crase.
III - No período “Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade”, as palavras destacadas em negrito indicam ideia de concessão.
Quais são corretas?