Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade que, de outro modo, não poderia ser verificada. Nas histórias de Malagueta, Perus e Bacanaço, João Antônio nos joga no universo noturno de São Paulo, mas de uma certa São Paulo, construída ao redor de alguns marginais moídos pela vida, procurando um jeito de sobreviver por meio da trapaça, da esperteza e da brutalidade. Outros, como João Antonio, terão sabido divisar a violência e a desigualdade dos centros urbanos, seja na Curitiba de Dalton Trevisan, seja no Rio de Janeiro de Rubem Fonseca.
(Baseado em CANDIDO, Antonio. O albatroz e o chinês. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2010. pp. 208 e 209)
Atente para esta passagem que inicia um conto de Dalton Trevisan:
Aos dezessete anos você não é sério. Gil não era sério aos sessenta. O caso com a amante em crise. Ela pede tempo e distância para pensar. Insatisfeita, sente-se em desvantagem. Ele, no bem-bom, dupla família, uma completa a outra. Alega, o cínico, que tem amor bastante para as duas.
O trecho já deixa entrever duas qualidades típicas da obra do autor: