TEXTO
Sacristão
Só tenho a lamentar minha pobreza, que não me permite ajudar os amigos.
Severino
Mais pobre do que Vossa Senhoria é Severino do Aracaju, que não tem ninguém por ele, a não ser seu velho e pobre papo-amarelo. Mas mesmo assim eu quero ajudá-lo, porque Vossa Senhoria é meu amigo. (Tirando o dinheiro.) Três contos! Estou quase pensando em deixar o cangaço. Eu deixava vocês viverem, o bispo demitia o sacristão e me nomeava no lugar dele. Com mais uns cinquenta cachorros que se enterrassem, eu me aposentava. (Sonhador.) Podia comprar uma terrinha e ia criar meus bodes. Umas quatro ou cinco cabeças de gado e podia-se viver em paz e morrer em paz, sem nunca mais ouvir falar no velho papo-amarelo.
Bispo
Mas é uma grande ideia, Severino.
Severino
É uma grande ideia agora, porque a polícia fugiu. Mas ela volta com mais gente e eu não dava três dias para o senhor bispo fazer o enterro do novo sacristão.
[...]
(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 32. ed. São Paulo: Agir, 2006. p. 109. Adaptado.)
Na fala de Severino do Aracaju está implícita uma certa ironia referente à moralidade, uma vez que ele menciona que, deixando o cangaço e se tornando sacristão, poderia aposentar-se depois de enterrar uns cinquenta cachorros. Nota-se que o Sacristão e o Bispo estão de certa forma faltando com o dever, uma vez que eles aceitam fazer o sepultamento da cachorra em troca do dinheiro que a mulher do padeiro ofereceu. Na vertente tradicional, essa prática é inaceitável para a sociedade; porém, no mundo contemporâneo, pode-se “dar um jeitinho”, ainda que ferindo certos valores morais. Na perspectiva de um determinado filósofo, o que é certo e o que é errado muda continuamente. Esse filósofo desenvolveu uma crítica intensa dos valores morais e propôs uma nova abordagem: a genealogia da moral, isto é, o estudo da origem e da história dos valores morais.
Assinale a alternativa que corresponde ao nome desse filósofo: