Texto
Vendo passar o cortejo fúnebre, o menino falou:
— Mãe: eu também quero ir em caixa daquelas.
A alma da mãe, na mão do miúdo, estremeceu. O menino sentiu esse arrepio, como descarga da alma na corrente do corpo. A mãe puxou-o pelo braço, em repreensão.
— Não fale nunca mais isso.
Um esticão enfatizava cada palavra.
— Porquê, mãe? Eu só queria ir a enterrar como aquele falecido.
— Viu? Já está a falar outra vez?
Ele sentiu a angústia em sua mãe já vertida em lágrima. Calou-se, guardado em si. Ainda olhou o desfile com inveja. Ter alguém assim que chore por nós, quanto vale uma tristeza dessas?
À noite, o pai foi visitá-lo na penumbra do quarto. O menino suspeitou: nunca o pai lhe dirigira um pensamento. O homem avançou uma tosse solene, anunciando a seriedade do assunto. Que a mãe lhe informara sobre seus soturnos comentários no funeral. Que se passava, afinal?
— Eu não quero mais ser criança.
— Como assim?
— Quero envelhecer rápido, pai. Ficar mais velho que o senhor.
Que valia ser criança se lhe faltava a infância? Este mundo não estava para meninices. Porque nos fazem com esta idade, tão pequenos, se a vida aparece sempre adiada para outras idades, outras vidas? Deviam-nos fazer já graúdos, ensinados a sonhar com conta medida. Mesmo o pai passava a vida louvando a sua infância, seu tempo de maravilhas. Se foi para lhe roubar a fonte desse tempo, porque razão o deixaram beber dessa água?
— Meu filho, você tem que gostar viver, Deus nos deu esse milagre. Faça de conta que é uma prenda, a vida.
Mas ele não gostava dessa prenda. Não seria que Deus lhe podia dar outra, diferente?
— Não diga disso, Deus lhe castiga.
E a conversa não teve mais diálogo. Fechou-se sob ameaça de punição divina.
O menino permanecia em desistência de tudo. Sem nenhum portanto nem consequência. Até que, certa vez, ele decidiu visitar seu avô. Certamente ele o escutaria com maiores paciências.
— Avô, o que é preciso para se ser morto?
— Necessita ficar nu como um búzio.
— Mas eu tanta vez estou nuzinho.
— Tem que ser leve como lua.
— Mas eu já sou levinho como a ave penugenta.
— Precisa mais: precisa ficar escuro na escuridão
— Mas eu sou tinto e retinto. Pretinho como sou, até de noite me indistinto do pirilampo avariado.
Então, o avô lhe propôs o negócio. As leis do tempo fariam prever que ele fosse retirado primeiro da vida.
[...]
(COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 111-112. Adaptado.)
A morte é um tema que sempre intrigou a sociedade. Sabemos que ela chega para todos. Alguns a temem, e outros sorriem para ela. O interessante é que ela pode nos levar à reflexão ética sobre como devemos viver. Aliás, “há pessoas que só reavaliam sua maneira de viver em situações-limite, como doenças graves, sequestro ou ameaça qualquer que revele de modo contundente a fragilidade da vida. Outros preferem não pensar na morte porque a veem como aniquilamento, ao admitir que nada existe depois dela. Como viveríamos a partir dessa hipótese? Segundo alguns, levando em conta que a vida talvez devesse ser aproveitada gozando o momento presente, conforme a exaltação do carpe diem romano.”
(ARANHA, Maria Lucia de A.; MARTINS, Maria Helena P. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2009, p. 96.)
Tomando como referência esse fragmento e os filósofos que tratam sobre a morte, analise as afirmações abaixo:
I-A obra Fédon relata os momentos finais da vida de Sócrates, enquanto aguarda que lhe tragam a taça de cicuta. O mestre encontrava-se sereno em meio à emoção de todos. Um dos discípulos presentes afirmou não poder sentir compaixão, já que tinha diante dos olhos um homem feliz. Ele se preparou para a morte uma vez que rejeitava os excessos do comer, do beber e do sexo, sem se deslumbrar com riqueza e honras, e buscava sempre a sabedoria. Diante da inevitabilidade da morte, Sócrates aceitou-a com serenidade.
II-O filósofo e orador romano Cícero diz que filosofar não é outra coisa senão se preparar para a morte. Montaigne, filósofo francês, cita Cícero para abordar o tema da morte. Segundo ele, meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade, porque quem aprendeu a morrer recusa-se a servir, a submeter-se. Viver bem é preparar-se para morrer bem. Montaigne afirma: “a vida em si não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis”.
III- Para Epicuro, a morte tem um significado importante, pois ela dá sentido à vida. É função da morte explicar a vida. Ele, ainda, contempla a ideia de que devemos viver eternamente e, para tanto, é necessário viver prazerosamente, lembrando que Epicuro cultiva o prazer material.
IV-De acordo com o poeta Horácio (I a.C.), a expressão carpe diem – que é popularmente traduzida para “colha o dia” – significa viver o hoje, mas com um olhar no amanhã. É desfrutar a vida e os prazeres eternos. Essa expressão tem o objetivo de lembrar que a vida é feita de momentos e que o que colhemos hoje será a semente do amanhã. Portanto, cada instante deve ser aproveitado.
Agora, com base nessas afirmações, assinale a alternativa correta: