Texto para responder à questão.
Na pele do outro
O cotidiano parece se repetir conforme o previsto até
que você é empalado por uma cena. Eu saía da loja de um
shopping de São Paulo, na tarde de sábado, quando ele
passou por mim. Não sei se era a forma como o ar se
[5] deslocava de outro jeito ao redor dele, mas eu ainda não o
tinha visto e minhas mãos já se estendiam no ar para
ampará-lo. Ou talvez fosse só impressão minha, uma
vontade estancada antes do movimento. Era um homem
velho. Mas mais do que velho, era um homem doente.
[10] Cada um dos seus passos se dava por uma coragem tão
grande, porque até o pé aterrissar no chão me parecia que
ele podia retroceder ou cair. Mas ele avançava. E porque ele
avançava na minha frente eu pude ver aquilo que outras
partes de mim já haviam percebido antes. Sobre a sua
[15] cabeça havia uma peruca tão falsa que servia apenas para
revelar aquilo que ele pretendia esconder. E de uma cor tão
diferente do seu cabelo branco que parecia descuido de
quem o amava ou não amava. Aquilo doía porque havia uma
vaidade nele, a preocupação de ocultar a nudez da cabeça. E
[20] a peruca mal feita a expunha como um fracasso. A cada um
de seus passos de epopeia sua camisa subia revelando um
largo pedaço da fralda geriátrica. E assim ele avançava
como uma denúncia claudicante da fragilidade de todos nós.
Atravessando o corredor do shopping, lugar onde fingimos
[25] poder comprar tudo o que nos falta, consumidos pelo medo
dessa vida que já começa nos garantindo apenas o fim.
Eu o seguia nesse balé sem coreografia quando ouvi os
risinhos. Olhei ao redor e vi as pessoas se cutucando. Olha
lá. Olha lá que engraçado. Ele tinha virado piada. Aquele
[30] homem desconhecido deixara a sua casa e atravessava o
shopping. Para isso empreendera seus melhores esforços.
Tinha vestido a peruca para que não percebessem sua
calvície. Tinha colocado a fralda para não se urinar no meio
do corredor. E caminhava podendo cair a cada passo. E as
[35] pessoas ao seu redor riam. E por um momento temi uma
cena de filme, quando de repente todos começam a
gargalhar e há apenas o homem em silêncio. O homem que
não compreende. Até enxergar seu reflexo no olhar que o
outro lhe devolve e ser aniquilado porque tudo o que veem
[40] nele, não é um homem tentando viver, mas uma chance de
garantir sua superioridade e sua diferença.
BRUM, Eliane. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com. Acesso em: 12 out. 2019, com adaptações.
Com base na norma culta e nas questões linguísticas relativas ao texto, assinale a alternativa correta.