TEXTO 5
[1] Quando tomava seu remédio meu pai parecia incorporar em espírito outras
pessoas, que continuavam sendo meu pai. Era como o médico da história, que se
transformasse a cada vez num monstro diferente. Normalmente calado, casmurro até, já
ao segundo gole da branquinha começava a falar desinibido, às vezes alegre, às vezes
[5] veemente. A nossa casa era grande, tinha quatro quartos amplos, além da cozinha, do
banheiro, da sala de visitas e da copa. Tinha também um jardim fronteiro e um quintal
aos fundos, sem falar no porão, um grande espaço escuro por baixo de toda a casa, à
entrada do qual – uma abertura em arco – a gente chegava descendo três degraus de
pedra para uma faixa cimentada, abaixo do nível do terreno. Nos dias de bebida meu
[10] pai costumava ficar no quarto ao lado da copa. Sentava diante de sua escrivaninha,
sempre cheia de papéis e livros dispersos ao redor do tinteiro e da caneta com pena de
aço. Ficava ali horas inteiras, às vezes rabiscando coisas sobre papéis avulsos, às
vezes rindo sozinho e falando em voz baixa. Minha mãe, assustada, passeava na ponta
dos pés, para lá e para cá, diante da porta do quarto. Espiava lá para dentro, voltava
[15] para a cozinha dizendo sempre “por que ele fica assim, parecendo um louco?”
In: SOUZA, Silveira de. Ecos no porão. V. 2. Editora da UFSC: Florianópolis, 2012, p. 130.
Assinale a alternativa correta em relação à obra Ecos no porão, Silveira de Souza, e ao Texto 5.