Texto
22 de maio Eu hoje estou triste. Estou nervosa. Não sei se choro ou saio
correndo sem parar até cair inconciente. É que hoje amanheceu chovendo. E eu não
saí para arranjar dinheiro. Passei o dia escrevendo. Sobrou macarrão, eu vou
esquentar para os meninos. Cosinhei as batatas, eles comeram. Tem uns metais e um
[5]. pouco de ferro que eu vou vender no Seu Manuel. Quando o João chegou da escola eu
mandei ele vender os ferros. Recebeu 13 cruzeiros. Comprou um copo de agua
mineral, 2 cruzeiros. Zanguei com ele. Onde já se viu favelado com estas finezas?
...Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem
eles comem pão duro.
[10] Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do
favelado.
Oh! São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os
arranha-céus. Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela.
...O dinheiro não deu para comprar carne, eu fiz macarrão com cenoura. Não
[15] tinha gordura, ficou horrivel. A Vera é a única que reclama e pede mais. E pede:
- Mamãe, vende eu para a Dona Julita, porque lá tem comida gostosa.
Eu sei que existe brasileiros aqui dentro de São Paulo que sofre mais do que eu.
Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social. Devido eu
carregar muito ferro fiquei com dor nos rins. Para não ver os meus filhos passar fome
20. fui pedir auxilio ao propalado Serviço Social. Foi lá que eu vi as lagrimas deslisar dos
olhos dos pobres. Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola. A ironia com
que são tratados os pobres. A unica coisa que eles querem saber são os nomes e os
endereços dos pobres.
Jesus, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. 102.ed. São Paulo: Ática. pp.41 e 42.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Quarto de Despejo: diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus, e ao Texto.