TEXTO:
Uma esperança
Aqui em casa, pousou uma esperança. Não a
clássica, que tantas vezes se verifica ser ilusória,
embora, mesmo assim, nos sustente sempre. Mas a
outra, bem concreta e verde: o inseto.
5 Houve um grito abafado de um de meus filhos:
— Uma esperança! E na parede, bem em cima de
sua cadeira!
Emoção dele também que unia em uma só as duas
esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa
10 minha: esperança é coisa secreta e costuma
pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não
acima de minha cabeça, numa parede. Pequeno rebuliço:
mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde
não poderia ser.
15 — Ela quase não tem corpo, queixei-me.
— Ela só tem alma, explicou meu filho e, como
filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa
que ele falava das duas esperanças.
— Parece que esperança não tem olhos, mamãe,
20 é guiada pelas antenas.
— Sei, continuei mais infeliz ainda.
— Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e
pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar — estaria por acaso ferida?
25 Ah não, senão, de um modo ou de outro, escorreria
sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que, farejando o mundo que é comível,
saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha,
mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia
30 invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela
queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh!
Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar
a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber
se chegara infelizmente a hora certa de perder a
35 esperança:
— É que não se mata aranha, me disseram que
traz sorte...
— Mas ela vai esmigalhar a esperança! Respondeu
o menino com ferocidade.
40 O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com
o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava
vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida:
a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma
45 esperança bem menor que esta pousara no meu braço.
Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente
que tomei consciência de sua presença. Encabulei com
a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa
agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei
50 extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido
em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu.
E, acho que não aconteceu nada.
LISPECTOR, Clarice. Uma esperança. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2011. Adaptado.
A leitura do texto permite inferir que