Sobre o poema a seguir assinale o que for correto
Brinde no banquete das musas
Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva...
Poesia, morte secreta
ANDRADE, C. D. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 220.
01) Empregada como vocativo no segundo verso da segunda estrofe, a “poesia” estabelece a mediação entre o eu e o mundo. Apesar de ser “comida estranha”, “marulho e náusea”, “canção suicida” e “morte secreta”, é ela que “reintegra a essência do poeta”, que sustenta e salva “o que é perdido”.
02) Os termos grotescos presentes no primeiro verso – “Poesia, marulho e náusea,” – associados, no texto, a reações do corpo, aproximam o poema da vertente naturalista e da estética parnasiana, nas quais se encontra Augusto dos Anjos.
04) O tom místico e espiritual é conferido ao poema pela presença das musas, que são semideusas. A poesia, temática central, é comparada à mulher sensual, e os elementos de comparação lembram rituais religiosos, muito explorados na escola simbolista.
08) Uma das temáticas frequentemente desenvolvidas pelos poetas da segunda fase do Modernismo brasileiro é a própria poesia (processo de metalinguagem). O título, chave de leitura do texto, denota que as musas celebram a integração de elementos sugestivos da poesia.
16) Formalmente, o poema apresenta anáfora e assonâncias (primeira estrofe); cromatismo e encadeamento (“Azul, em chama, o telúrico/reintegra a essência do poeta,”); rimas ricas (suicida/vida; estranha/aranha; poeta/secreta); e rima pobre (universo/verso).