Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora ∼, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
− dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem,
Mulher é desdobrável. Eu sou.
O surgimento de Adélia Prado na literatura brasileira representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante. A poetisa incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona de casa; encontrou um equilíbrio entre o feminino e o feminismo, conciliação digna de nota.
A coluna da esquerda apresenta trechos do poema e a da direita, leituras possíveis. Numere a coluna da direita de acordo com a da esquerda.
1 - Não sou feia que não possa casar,
2 - Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
3 - Minha tristeza não tem pedigree,
( ) Aspecto de uma relação conservadora do eu-lírico com o papel historicamente submisso da mulher.
( ) Qualidade do eu-lírico que aponta para o caráter transitório de eventuais estados melancólicos.
( ) Atitude pessoalíssima do eu-lírico, compensatória de uma inferioridade inerente, doada e imposta por sua condição de poeta.
Assinale a seqüência correta.