Quantas vezes ocorreu-me de sonhar, durante a noite, que
estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao
fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito?
Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo
[5] este papel [...]. Mas, pensando cuidadosamente nisso,
lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dor-
mia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensa-
mento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios
concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa
[10] distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente
pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me
persuadir de que estou dormindo.
Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que
todas essas particularidades, a saber, que abrimos os olhos,
[15] que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes,
não passam de falsas ilusões [...]. Todavia, é preciso
ao menos confessar que as coisas que nos são representadas
durante o sono são como quadros e pinturas, que não
podem ser formados senão à semelhança de algo real e verdadeiro;
[20] e que assim, pelo menos, essas coisas gerais, a saber,
olhos, cabeça, mãos e todo o resto do corpo, não são coisas
imaginárias, mas verdadeiras e existentes.
(DESCARTES, René. Meditações metafísicas. Tradução de J. Guinsburg eBento Prado Júnior. 3.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, p. 119.)
É correto afirmar, acerca do argumento no segundo parágrafo (
.16 a 22), que