A taça florida
Câmara Cascudo
Natal é uma cidade sem flores. Falta dagua. Terra de taboleiro muito mais para mangaba que para flor. Briza quente do mar. Sopro do rio salgado. Lagôas no meio da cidade que infiltravam salôbridades. Não ha flores. Melhor é dizer que já não ha. Lembro-me de Natal cheia de jardins. Uma quase obrigação de cultivar os palmos de terrinha que se estendiam depois do portão. Era um encanto andar em certas ruas. As cercas vestidas de jasmim branco davam vontade de fazer soneto. [...]
CASCUDO, Luís da Câmara. A taça florida. In: ARRAIS, Raimundo (Org.). Crônicas de origem: a cidade do Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20. Natal, RN: EDUFRN, 2005. p. 119-121.
A flor e a náusea
Carlos Drummond de Andrade
[...]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu
Sua cor não se percebe
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A flor e a náusea. In: _____. Nova reunião: 23 livros de poesia. v. 1. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009. p. 143-144.
Nos Textos 4, 5 e 6, o espaço urbano é focalizado sob diferentes olhares. A partir da leitura de cada um dos textos, é correto afirmar que