TEXTO A:
Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se
foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o
que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato.
Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois
[5] para uma cidade, e os meninos frequentariam escolas,
seriam diferentes deles. Sinha Vitória esquentava-se.
Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as mãos agarradas
à boca do saco e à coronha da espingarda de pederneira.
Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas
[10] que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças
que empestavam o caminho. As palavras de Sinha Vitória
encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam uma terra
desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava
nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde
[15] era. Repetia docilmente as palavras de Sinha Vitória, as
palavras que Sinha Vitória murmurava porque tinha
confiança nele. E andavam para o Sul, metidos naquele
sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes.
Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e
[20] necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como
uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que
iriam fazer? Retardaram-se, temerosos.
Chegariam a uma terradesconhecida e civilizada,
ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar
[25] gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens
fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois
meninos.
RAMOS, Graciliano Vidas secas. São Paulo: Martins, 1970, p. 172.
TEXTO B:
Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidades e de vilas,
[5] e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
[10] foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
[15] esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
[20] ou meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
[25] Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
[30] a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
[35] caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
[40] de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina. In: Obras Completas. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. p. 192.
Uma comparação entre o conteúdo dos dois textos permite verificar: