Em 1862, José de Alencar publicou um de seus mais importantes romances urbanos, Lucíola, ambientado na atmosfera carioca nos tempos do Segundo Reinado. Como se sabe, no enredo do livro, Paulo apaixona-se por Lúcia, uma jovem prostituta que, aos poucos, vai se relevando uma moça pura (na verdade, Maria da Glória) que, no seu passado, foi levada à prostituição para salvar a família, especialmente a irmã mais jovem. O texto a seguir foi extraído dos últimos capítulos do livro, quando Lúcia, tendo já se “regenerado” da vida na prostituição, vive tranquilamente com Paulo numa casinha distante da corte, sofrendo, no entanto, a segregação e a discriminação social.
Lucíola, ∩. 20
Nessa ocasião adiantavam-se por entre as árvores as outras moças acompanhadas de um homem, cujo rosto não pude ver logo por entre a folhagem. Lúcia, atenta aos esforços que fazia sua discípula para acertar, não reparou nessa circunstância. O grupo parou a alguma distância; eu reconheci o Couto no momento em que se adiantava com um movimento de espanto. Corri para fazer Lúcia retirar-se antes de vê-lo; mas estava distante, e quando cheguei, já a mais velha das moças se tinha aproximado, e arrancando a pulseira das mãos de sua irmã, atirou-a por cima da grade:
— Não toques em coisa que pertença a esta mulher! É uma perdida!
Lúcia tinha erguido a cabeça no primeiro instante de surpresa; nada porém perturbava a serenidade e quietude de seu rosto iluminado por uma doce altivez; circulou com um olhar límpido os atores desta cena, como se lhes pedisse a explicação do desagradável incidente; e tomando Ana pela mão e passando o braço pelo meu, afastou-se com uma dignidade meiga e nobre.
Contudo pensei que esse sossego era aparente, e que sua alma devia ter sido traspassada por aquele ultraje. Ela respondeu à interrogação muda do meu olhar murmurando-me ao ouvido para que sua irmã não a ouvisse:
— Elas não sabem, como tu, que eu tenho outra virgindade, a virgindade do coração! Perdoa-lhes, Paulo.
E o sorriso, que banhou estas palavras como de uma luz divina, parecia abrir o céu aos arroubos de sua alma.
(José de Alencar. Lucíola. São Paulo: Editora Companhia Nacional, 2005, p. 145).
O comportamento de Lúcia diante da provocação da "mais velha das moças", conforme descrito na cena do romance de Alencar, denuncia um choque de valores morais, muito típico do romantismo, que pode ser visto como uma oposição entre