“O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.
— Vamos com essas pedras!
Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.
— Não posso, estão enterradas.
— Ah, Moleza.
Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma.
Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.
— Pai, pai, o caminhão tá afundando!
A cabeça dele apareceu entre as ervas.
— Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?
E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.”
Sergio Faraco “Idolatria”. In: FARACO, Sergio. Hombre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p.15-17.
Neste que é um dos contos mais conhecidos e elogiados de Sergio Faraco, o narrador fala de seu pai, um freteiro, descrevendo-o, a partir do episódio em que o caminhão enguiça em uma viagem que eles fizeram juntos, quando o filho ainda era um menino. A partir do fragmento, é incorreto afirmar que