I.
A quem interessa a relação médico-paciente?
O assunto da relação médico-paciente (RMP) tem
sido tratado extensamente por numerosos autores.
Entretanto, na maioria das vezes, suas análises são
lidas e debatidas por profissionais distantes da prática
[5] clínica, o que não deixa de conferir a essas discussões
uma aparência de inutilidade. A Medicina, como
comenta Clavreul (1983), segue indiferente ao que dela
se diz.
Para a maioria dos clínicos, a questão da relação
[10] com seus clientes remete basicamente a algumas aulas
da graduação, ou aparece na forma de um discurso
mais ou menos lírico, utilizado em conversas entre
colegas, frequentemente sem maiores correlações com
a realidade vivida nos consultórios e enfermarias.
[15] Mostra-se, dessa forma, despossuída de qualquer
conteúdo positivo ou intrínseco às aptidões
objetivamente exigidas para o cuidado dos doentes;
portanto, um conceito idealizado.
Por outro lado, boa parte das críticas dirigidas à
[20] forma como se estabelece usualmente essa relação
carece igualmente da proposição de alternativas
factíveis dentro da realidade cotidiana dos profissionais
de saúde e, portanto, compartilham da mesma ilusão
idealista.
[25] Um exemplo bastante prático disso é a
abordagem do aspecto afetivo da RMP. Ora, a afetividade
existe inevitavelmente, na medida em que ela se refere
a um contato entre pessoas, embora concordemos com
Sartre (Birman, 1980) quando considera a relação com
[30] o médico como um fato original, diferenciado das
características das outras relações, o que certamente
não invalida a afirmação anterior. Dessa forma, por mais
que se procure manter um distanciamento, sentimentos
estarão sempre presentes, nos mais variados modos
[35] [...]. Não pretendemos menosprezar esse aspecto da
RMP. Entretanto, parece-nos mais adequado aceitar
simplesmente o caráter imprevisível dos afetos
presentes na consulta, na medida em que envolvem
um campo alheio à racionalidade humana.
FERNANDES, João Cláudio Lara. A quem interessa a relação médico-paciente? Disponível em: .Acesso em: 7 set. 2014. Adaptado.
II.
O ensino-aprendizagem da relação médico-paciente
A relação médico-paciente é um processo
especial de interação humana, que é a base da prática
clínica em suas dimensões técnica, humanística, ética
e estética. Como qualquer processo de interação
[5] interpessoal, essa relação é mediada pela
comunicação.
Entre seus benefícios estão, dentre outros, maior
precisão na identificação dos problemas do paciente,
com promoção do raciocínio clínico; maior adesão ao
[10] tratamento; melhor entendimento pelos pacientes de
seus problemas, das investigações conduzidas e das
opções de tratamento; menor incidência de queixas
de erro médico e maior satisfação para médico e
paciente.
[15] Pesquisas realizadas desde a década de 1970
têm constatado associação entre comunicação efetiva
e influência positiva na saúde física e emocional do
paciente. Mas a demonstração de problemas na área
da comunicação em saúde tem sido frequente, como
[20] a percepção de pacientes cujas preocupações não são
elucidadas pelos médicos, o não diagnóstico de
problemas psicossociais e psiquiátricos na prática
médica, a falta de aconselhamento em saúde pelo
médico ao paciente e o não entendimento ou a não
[25] lembrança pelos pacientes sobre o que o médico diz
quanto ao diagnóstico e/ou tratamento.
As habilidades de comunicação podem ser
ensinadas. [...] As escolas médicas têm não só a
oportunidade, mas a responsabilidade de ensinar e
[30] avaliar as habilidades de comunicação, e estudos
demonstram sua promoção após intervenções
educacionais.
No Brasil, as diretrizes curriculares para o curso
de graduação em Medicina, homologadas em 2001,
[35] contemplam a importância das habilidades de
comunicação, e a Comissão Nacional de Residência
Médica, em 2004, deliberou que os concursos para
admissão de residentes deveriam incluir uma segunda
fase, constituída de prova prática, já que “a avaliação
[40] das habilidades e comportamentos constitui elemento
essencial à seleção do candidato”.
GROSSEMAN, Suely; STOLL, Carolina. O ensino-aprendizagem da relação médico-paciente. Disponível em:http://www.sielo.br/pdf/ rbem/v32n3/v32n3a04.pdf>. Acesso em: 8 set. 2014. Adaptado.
O confronto dos dois textos permite considerar como correto o que deles se afirma em