Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro. [...] Quanto a mim, estou cansado. Talvez da companhia de Macabéa, Glória, Olímpico. O médico me enjoou com sua cerveja. Tenho que interromper esta história por uns três dias. [...]
E agora emerjo e sinto falta de Macabéa. Continuemos:
- É muito caro?
- Eu lhe empresto. Inclusive madama Carlota também quebra feitiço que tenham feito contra a gente. Ela quebrou o meu à meia-noite em ponto de uma sexta-feira treze de agosto, lá para lá de S. Miguel [...]. Você tem coragem?
- Não sei se posso ver sangue.
Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia vivificante. Mas Macabéa só sabia que não podia ver sangue, o resto fui eu que pensei. Estou me interessando terrivelmente por fatos: fatos são pedras duras. Não há como fugir. Fatos são palavras ditas pelo mundo.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 63-64. (Fragmento)
A metalinguagem está presente no trecho em que o narrador:
I. reflete sobre o papel do escritor no ato da escrita literária, em “A procura da palavra no escuro”;
II. reforça o enfado que a escrita literária traz ao escritor e o arrependimento constante por dedicar-se a ela, em “Estou absolutamente cansado de literatura”;
III. faz referência ao isolamento provocado pela literatura e a necessidade de criar personagens para povoar seu universo, em “só a mudez me faz companhia”;
IV. faz uma autorreflexão sobre o porquê escreve e apresenta a escrita literária como a razão para a existência do escritor, em “Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte”.
É correto o que se afirma em