INSTRUÇÃO:O elemento místico-religioso é um componente fundamental da poesia de Adélia Prado, o que também se verifica em sua coletânea de poemas intitulada Miserere, palavra latina extraída da liturgia católica: “Miserere nobis!” (“Tem piedade de nós!”). Nesse sentido, leia os seguintes textos para responder à questão.
Texto 1
Jó consolado
Desperta, corpo cansado;
Louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
[5] Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
[10] paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
PRADO, Adélia. Miserere. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015. p.23.
Texto 2
Havia na terra de Hus um homem chamado Jó. Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e servos em grande número. Era, pois, o mais rico de todos os homens do Oriente. [...]
Ora, um dia em que os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, chegou um mensageiro à casa de Jó e lhe disse: “Estavam os bois lavrando e as mulas pastando ao lado deles, quando os sabeus caíram sobre eles, passaram os servos ao fio da espada e levaram tudo embora. Só eu pude escapar para trazer-te a notícia”. Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Caiu do céu o fogo de Deus e queimou ovelhas e pastores e os devorou. Só eu pude escapar para trazer-te a notícia”. Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Os caldeus, formando três bandos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos consigo, depois de passarem os servos ao fio da espada. Só eu pude escapar para trazer-te a notícia”. Este ainda falava, quando chegou outro e disse: “Estavam teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo na casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou das bandas do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e os matou. Só eu pude escapar para trazerte a notícia”.
Então Jó se levantou, rasgou seu manto, rapou sua cabeça, caiu por terra, inclinou-se no chão e disse: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. Iahweh o deu, Iahweh o tirou, bendito seja o nome de Iahweh”.
Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem imputou nada de indigno contra Deus.
Bíblia de Jerusalém. Jó 1,1-3;13-22.
Texto 3
Jó continuou a exprimir-se em sentenças e disse: [...] “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, sem que te importes comigo. Tu te tornaste meu verdugo e me atacas com teu braço musculoso. Levantas-me e me fazes cavalgar o vento e me sacodes com a tempestade. Bem vejo que me devolves à morte, ao lugar de encontro de todos os mortais. Acaso não estendi a mão ao pobre, quando, na penúria, clamava por justiça? Não chorei com o oprimido, não tive compaixão do indigente? Esperei felicidade, veio-me a desgraça; esperei luz, veio-me a escuridão...”.
[...]
Então Iahweh respondeu a Jó, do seio da tempestade, e disse: “Quem é esse que obscurece meus desígnios com palavras sem sentido? Cinge-te os rins, como herói, interrogar-te-ei e tu me responderás. Onde é que estavas quando lancei os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que sabes tanto. Quem lhe fixou as dimensões? – se o sabes –, ou quem estendeu sobre ela a régua? Onde se encaixam suas bases, ou quem assentou sua pedra angular, entre as aclamações dos astros da manhã e o aplauso de todos os filhos de Deus? [...] Deverias sabê-lo, pois já tinhas nascido e grande é o número dos teus anos”. [...]
Jó respondeu a Iahweh: “Reconheço que tudo podes e que nenhum de teus desígnios fica frustrado. [...] Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. [...] Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem...”.
Bíblia de Jerusalém. Jó 29,1.20-26; 38,1-7.21; 42,1-5.
A respeito do poema de Adélia Prado, lido à contraluz dos textos bíblicos, analise os comentários que se seguem:
I. O eu lírico do poema é Deus (Iahweh, no texto bíblico), que confessa o seu amor pelo homem e o convida a louvar a beleza de viver, apesar da fragilidade e do sofrimento inerentes à existência humana.
II. A figura bíblica de Jó, invocada no título do poema, metaforiza o ser humano perplexo diante do drama do sofrimento e do mal, conforme se verifica no primeiro parágrafo do texto 3.
III. O eu lírico do poema é Jó, que confessa a Deus seu amor por ele apesar dos sofrimentos que lhe enchem o corpo de cicatrizes.
IV. O consolo a que se refere o título do poema encontra-se contemplado na resposta de Deus (Iahweh) a Jó no texto 3, quando afirma que sua sabedoria e grandeza superam em muito a pequenez do homem.
Encontram-se adequadas aos textos as interpretações apresentadas em