Texto para a questão.
Erro comum ou acerto comum?
― Como é que você pretende provar para nós, e para
os leitores do seu livro, que o português falado pela
Eulália, por exemplo, não é errado? – pergunta Emília.
― Respondo com outras perguntas – diz Irene. –
Como chamar de erros fenômenos que acontecem de
Norte a Sul do Brasil? Como é que tanta gente
consegue cometer os mesmos “erros” ao mesmo
tempo? Se milhões de pessoas por este Brasil afora
dizem “os óio” onde você esperaria “os olhos”, será
possível falar de “erro comum”, como gostam de dizer
os gramáticos tradicionalistas? Não seria o caso de
falar de “acerto comum”? O que eu pretendo mostrar,
no livro, é que tudo aquilo é considerado erro no PNP*
tem uma explicação científica, do ponto de vista
linguístico ou outro, lógico, pragmático, psicológico...
― E quando vamos poder falar de erro, então? – quer
saber Emília.
― A noção de erro tem que ser reservada para
problemas individuais – responde Irene. – Se alguém
ao invés de dizer cavalo diz cafalo, este ∼ estará
cometendo um erro, devido talvez a problemas físicos
na audição ou na fonação, pois essa forma não é
registrada em nenhuma variedade do português do
Brasil. Mas dizer pranta no lugar de planta não é um
erro: é um fenômeno chamado rotacismo, que
acontece nas mais diversas regiões do país e que
participou da formação da língua portuguesa padrão ao
longo dos séculos. Tenho um capítulo só sobre isso.
― Tudo bem – diz Emília - mas eu insisto: e as
provas?
― Para provar que as características do português
não-padrão não são “erros”, eu vou recorrer a duas
estratégias principais...
― A saber ... – cobra Emília.
― Primeiro, comparar o PNP com outras línguas vivas
e mostrar que nelas também ocorrem fenômenos (e
não "erros”) semelhantes.
― Muito perspicaz... – graceja Emília.
― Em seguida – prossegue Irene, sorrindo com o tom
brincalhão da estudante de Pedagogia - buscar na
história da própria norma-padrão as explicações para
determinadas características que aparentemente são
exclusivas do PNP.
* Português não-padrão (BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 16 ed. São Paulo: Contexto, 2010. p. 34-35.)
Embora o texto seja predominantemente narrativo, é possível perceber nele a presença de: