Leia o seguinte excerto do livro Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus.
Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
(...)
Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. ...Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:
– Viva a mamãe!
A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim:
– “Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu não pude catar papel. Agradeço, Carolina”.
...Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!
JESUS, Carolina Maria. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014, p. 30-31.
Na totalidade do livro e com base nesse fragmento, analise as assertivas que seguem considerando V para verdadeira e F para falso.
I. ( ) Escrito em forma de diário pela própria protagonista, uma moradora da favela do Canindé, em São Paulo, Quarto de despejo relata a dura lida dos favelados.
II. ( ) Apesar dos 70 anos da Abolição da Escravatura, celebrada na mesma data em que está escrevendo, Carolina de Jesus não vê que a condição dos descendentes dos antigos escravos tenha mudado significativamente.
III. ( ) Escrita numa linguagem simples, despojada, consequência de quem não foi além do segundo ano primário, a prosa da autora, no entanto, vem carregada de força e estilo próprios, sem procurar emular de maneira alguma a norma culta da língua.
IV. ( ) Em Quarto de despejo assistimos ao dia-a-dia de uma favela paulistana da passagem das décadas de 1950 e 1960: a fome, a doença, os meios precários de vida. No entanto, a solidariedade dos vizinhos ameniza, ainda que pouco, essa realidade.
V. ( ) Escrita por Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo sofreu um forte trabalho de edição de Audálio Dantas, que suprimiu muitas fartes e reescreveu outras, o que foi objeto de muitas críticas à época.
As afirmações são respectivamente