O cão sem plumas
João Cabral de Melo Neto
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
[...]
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
[...]
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
“O cão sem plumas” é um poema composto por 426 versos, de autoria do poeta modernista João Cabral de Melo Neto. Sobre o excerto reproduzido acima, analise as afirmativas abaixo.
I. Em “O cão sem plumas”, João Cabral denuncia não apenas o estado do rio Capibaribe, mas ressalta a exclusão da população ribeirinha.
II. Ao afirmar que “Aquele rio era como um cão sem plumas”, o autor destaca a extensão do rio, que corta todo o estado de Pernambuco.
III. O cão sem plumas tematiza uma denúncia social sem cair no tom panfletário ou romantizado.
IV. A imagem do cão sem plumas, sem enfeites, sem adornos é uma metáfora criada por João Cabral para representar o rio Capibaribe.
V. Como o rio Capibaribe ocupa a posição de protagonista do poema, não há espaço para tratar da região, do povo ou da cidade que o circunda.
Estão corretas apenas: