O ignorante não sabe que o é
Contardo Calligaris
Lena Dunham é a autora e a protagonista de “Girls”, o seriado da HBO
que estreia sua última temporada nesta semana. “Girls” é “Sex ∈ the City”,
mas para gente grande – o que é irônico, porque o pessoal de “Girls” é mais
jovem do que o pessoal de “Sex ∈ the City”. Enfim, Lena Dunham, pela boca
[5] de sua personagem Hannah, reconheceu: “Tenho forte opinião sobre tudo.
Mesmo em tópicos sobre os quais sei pouco a respeito”. Talvez você não
goste de Lena Dunham e pule de alegria porque ela finalmente admitiu o que
você sempre pensou dela (ou seja, que ela é “metida” mesmo). Pois bem, não
pule. O que Dunham disse é apenas uma regra universal e incontestável: ao
[10] tomar posição sobre qualquer tópico, quanto menos soubermos, tanto mais
mostraremos e sentiremos uma certeza absoluta. E quanto maior nossa
incompetência, tanto maior será nossa convicção na hora de agir.
Em 1995, o sr. McArthur Wheeler assaltou dois bancos depois de
molhar o rosto com suco de limão, absolutamente convencido de que
[15] o suco funcionaria como tinta invisível e não deixaria seu rosto aparecer
nas gravações das câmeras de segurança. Todos podemos ter ideias
erradas, mas só os grandes incompetentes se avaliam como extremamente
competentes.
O fenômeno foi comprovado em 1999 por David Dunning e Justin Kruger,
[20] psicólogos da Universidade Cornell, em uma série de experiências com a
prática médica, o jogo de xadrez, a capacidade de dirigir um carro, etc. Em
cada caso, as pessoas incompetentes não reconheciam o tamanho de sua
incompetência – só começavam a reconhecer sua incompetência efetiva se
e quando elas treinassem e se instruíssem para se tornarem competentes.
[25] Ou seja, quanto mais a gente é ignorante e incompetente, mais a gente
tem certezas radicais e passionais. Inversamente, quem se afasta de sua
incompetência (informando-se ou formando-se) torna-se mais humilde
e mais disposto a duvidar de si. Em suma, ignorância e incompetência
produzem uma ilusão interna de saber e competência. Inversamente, saber
[30] e competência produzem uma certa _________ do sujeito, que passa a
duvidar de si.
É possível pensar que a certeza passional seja uma maneira de compensar
(e esconder) nossa própria ignorância ou incompetência. Mas, de qualquer
forma, a explicação é intuitiva: quanto menos eu souber (do que for: de
[35] motor de carro, de política econômica, de teatro, de amor, etc.), tanto menos
saberei medir o que não sei. Inversamente, quem sabe mede facilmente que
só sabe uma pequena parte do que gostaria de saber. Sócrates dizia que ele
só sabia que nada sabia. Por isso mesmo, o resultado da pesquisa pareceu
tão esperado que Dunning e Kruger, em 2000, ganharam o prêmio Ig Nobel
[40] de irrelevância. Mas Dunning continuou e, em 2005, publicou um livro, “Self-
Insight”, cujas implicações são úteis.
Em época de grandes paixões e conflitos – ou, como se diz, de
polarizações – mundo afora, vale _________ pena lembrar que a certeza
(ainda mais quando for passional) é proporcional à ignorância e à
[45] incompetência. Aplique isso ao campo da moral, da política e da religião: a
ignorância é a grande mãe de quase qualquer extremismo. O psicanalista
Jacques Lacan disse um dia que só os teólogos conseguiam ser verdadeiros
ateus: o saber e a competência nos afastam da certeza.
Enfim, alguém poderia se preocupar especificamente com uma
[50] consequência disso tudo: se a ignorância e a incompetência nos
oferecem certezas (falsas, mas tanto faz), será que isso não significa que
os ignorantes e os incompetentes são os mais aptos a agir? Será que o
excesso de competência e de saber nos levariam a dúvidas sofridas e,
portanto, _________ incapacidade de agir? Por exemplo, deve ser fácil
[55] decidir a política dos EUA a partir do noticiário da televisão, mas se você
lesse e estudasse todos os relatórios preparados pelas diferentes fontes que
informam o presidente, então a tomada de decisão se tornaria complicada,
_________. Obviamente, essa não é uma razão para se render às facilidades
da incompetência. Tampouco é uma razão para não agir. Para agir, é preciso
[60] aceitar que a qualidade de um ato apareça nas dúvidas e não na certeza
de quem age, porque, como já dizia Touchstone, o bobo de “As You Like it”
(mais de 400 anos antes de Dunning e Kruger), “o idiota pensa que é sábio,
enquanto o sábio é aquele que sabe de ser idiota”.
Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2017/02/1858984-o-ignorante- -nao-sabe-que-o-e.shtml>. Acesso em: 2 mar. 17. (Adaptado.)
Conforme o texto, é correto inferir que