TEXTO
Aporofobia: aversão a pessoas pobres está presente até na arquitetura
Giacomo Vicenzo
[1] A palavra aporofobia tem ganhado holofotes com
as denúncias feitas pelo padre Júlio Lancellotti, da
Pastoral do Povo de Rua. Entre as fotos postadas em
suas redes sociais ele mostra elementos da chamada
[5] “arquitetura antipobres”, que impedem, nos espaços
públicos, a estadia, descanso ou passagem de pessoas
em situação de rua. “Grades, dutos de água, pedras
pontiagudas. Há os que querem disfarçar com vasos e
com paisagismo”, diz ele para Ecoa.
[10] Aporofobia significa aversão, medo e desprezo
aos pobres e desfavorecidos financeiramente. O termo,
que se tornou um neologismo no Brasil, deriva do grego
da junção das palavras á-poros [pobres] + fobos [medo].
Para entender como a aporofobia se enraíza na
[15] sociedade e cria uma construção mental que entende
pessoas como mais ou menos humanas, Ecoa
conversou com Lancellotti e com um doutor em
psicologia social que estuda as causas e as
consequências do preconceito.
[20]
O que é aporofobia e quando o termo surgiu?
O termo aporofobia foi usado pela primeira vez em
meados dos anos 90 pela filósofa espanhola Adela
Cortina, que estuda, entre outros temas, a aversão aos
[25] pobres. Em 2017, foi escolhido como palavra do ano
pela Fundación del Español Urgente (Fundéu) e no
mesmo ano foi integrado ao dicionário da língua
espanhola.
Assim como o termo xenofobia, que quer dizer
[30] aversão ou medo direcionado aos estrangeiros, Cortina
procurou uma palavra que desse conta de descrever a
rejeição aos pobres. Ela defende, aliás, que a
verdadeira “fobia” só é direcionada contra os
estrangeiros pobres e não pelos que detêm recurso
[35] financeiro ou boa condição de vida e passam a viver em
um novo país.
“A aporofobia é um sentimento sempre presente
no ser humano, segundo a Adela Cortina. Esse medo
do pobre faz parte da nossa estrutura de pensamento,
[40] mas pode ser mudado por meio de uma educação”,
explica Lancellotti para Ecoa. “Acontece também com
os refugiados, que morrem nos mares mediterrâneos,
pois os países da Europa se negam a socorrê-los”.
[45] Quais são os alvos da aporofobia?
Para James Moura Jr., doutor em psicologia social
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e
pesquisador visitante do Boston College (EUA), que
estuda as consequências da aporofobia, é preciso
[50] entender a pobreza de uma perspectiva
multidimensional para analisar alguns impactos sutis
desse preconceito.
“Quando se pensa na ideia de linhas de pobreza,
é o dinheiro que é usado como régua. Mas o filósofo e
[55] economista Amartya Sen traz ao debate a
compreensão de que ela deve ser entendida como
privação de forma mais ampla, para além da pobreza
financeira”, alerta.
“Nesse caso, a pessoa é privada de formas de ser
[60] e fazer, por exemplo, a falta de acesso à educação,
mobilidade e cultura. Assim, é possível ser considerado
pobre em uma perspectiva multidimensional. É uma
forma mais ampla de compreender a pobreza”,
completa ele, afirmando que é por isso que muitas
[65] pessoas podem não se sentir bem-vindas em um lugar,
mesmo quando podem pagar por ele.
No Brasil, no começo dos anos 2000, o grupo
Racionais MC's popularizou, entre as suas muitas
composições, os versos da música “Negro Drama”: “O
[70] dinheiro tira um homem da miséria, mas não pode
arrancar, de dentro dele, a favela”.
Os versos forjados na periferia de São Paulo vão
ao encontro das explicações feitas por Moura Jr., para
quem os símbolos que representam “os pobres” e seus
[75] territórios não desaparecem, mesmo com a ascensão
econômica, e são percebidos e repudiados pela elite.
Sobretudo entre os períodos de 2002 a 2015,
momentos em que houve queda ininterrupta da
desigualdade de renda no Brasil, como mostra estudo
[80] do Insper e publicado em reportagem na Folha.
“Depois desse período de incremento da renda,
outras pessoas começaram a frequentar espaços
elitizados como aeroportos, pois muitos que não tinham
como pagar passaram a ter essa possibilidade”, lembra
[85] o doutor em psicologia social.
“No entanto, havia uma construção das classes
mais altas de uma espécie de preconceito aos pobres,
pois eles ainda eram reconhecidos como pessoas de
classes mais baixas por uma série de sinais simbólicos”,
[90] completa.
Entre as afirmações de preconceito, o pesquisador
lembra de falas como a do Ministro da Economia Paulo
Guedes em um evento privado, que comentava o
período em que o dólar estava a R$ 1,80: “Todo mundo
[95] indo pra Disneylândia, empregada doméstica indo pra
Disneylândia, uma festa danada”, disse na ocasião.
Para Lancellotti, esse preconceito vem
aumentando na proporção em que o empobrecimento
cresce. “Está acontecendo um empobrecimento
[100] acelerado, temos uma população de rua que aumentou
53% em 2019 [de acordo com dados da Prefeitura de
São Paulo]. Mas esses números estavam abaixo da
realidade, pois consideravam menos de 25 mil e nós
acreditávamos que já tínhamos 32 mil pessoas nessas
[105] condições à época”, aponta o padre. (…)
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/01/25/aporofobia-aversaoa-pessoas-pobres-esta-presente-ate-na-arquitetura.htm#:~:text=Aporofobia% 3A%20avers%C3%A3o%20a%20pessoas%20pobres,%2F01%2F2022%20 %2D%20UOL%20ECO. Acesso 12 set 2022.
De acordo com o texto, assinale o que for correto.
01) A aproximação de “aporofobia” (linha 37) e “xenofobia” (linha 29) faz que esses vocábulos sejam entendidos como sinônimos.
02) A proximidade fonética e ortográfica entre “aporofobia” (linha 21) e “xenofobia” (linha 29) permite que o autor do texto explore a relação de paronímia estabelecida entre esses vocábulos.
04) O uso de “‘festa’” (linha 96), em sentido conotativo, permite que Paulo Guedes avalie o uso de transporte aéreo por indivíduos socioeconomicamente desfavorecidos como excessivo.
08) Os vocábulos “aversão”, “medo” e “desprezo” (linha 10) são empregados com sentido aproximado, mantendo, portanto, uma relação de sinonímia.
16) O vocábulo “‘régua’” (linha 54) pode ser substituído por medida, mantendo sentido do texto original.