Sobre o poema a seguir e sobre o fazer literário do seu autor,
assinale o que for correto.
Idealização da humanidade futura
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais! —
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
ANJOS, A. dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 40.
VOCABULÁRIO
monturo: monte de lixo; amontoado de coisas repugnantes, asquerosas.
01) A poesia de Augusto dos Anjos possui muitas faces, escapando de classificação em um único período artístico, por abarcar influências de diversas escolas literárias. No poema, o pessimismo em relação ao ser humano e a presença de forte imagem naturalista (último verso do poema) convivem com o apuro formal.
02) Nos dois primeiros versos da primeira estrofe se encontra um hipérbato e, na terceira estrofe, uma símile. O poema apresenta também metonímia: “Não sei que livro, em letras garrafais, / Meus olhos liam! No húmus dos monturos,”, além de elisões no verso “Tornara etnicamente irracionais! —”.
04) O fazer literário de Augusto dos Anjos focaliza preferencialmente a idealização da natureza e do amor como modo de evasão da morte. É independente e foge de toda espécie de subjetividade, com o intuito de explorar temas nacionalistas, históricos e arqueológicos.
08) Todos os seres humanos de gerações passadas se tornaram “impuros” e “etnicamente irracionais” devido aos grandes genocídios ocorridos na História. Visando a alcançar melhorias para as gerações vindouras, o eu lírico idealiza a humanidade futura e procura conscientizar, no presente, as multidões.
16) O eu lírico utiliza-se de um vocabulário grotesco na intenção de expressar conteúdos emotivos, deixando transparecer uma visão pessimista e trágica da existência. No último terceto, essa perspectiva é patenteada na ideia de que “em vez de achar a luz que os Céus inflama,” o eu lírico encontra a decomposição da matéria, expressa, principalmente, no verso “E a mosca alegre da putrefação!”.