Sobre a obra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, sobre a autora e aspectos históricos e literários, assinale o que for correto.
“13 de maio [...] ... Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”
[...]
“20 de maio [...] Como é horrível ver um filho comer e perguntar: ‘Tem mais?. Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.”
JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014, p. 32; 38.
01) Os relatos que compõem a obra destacam a cruel realidade social vivenciada pela personagem narradora e por seus filhos. Negra em uma sociedade racista, mulher em uma sociedade machista, pobre em uma sociedade com intenso preconceito de classe social, a realidade da personagem é atravessada por camadas de opressão sobrepostas.
02) A personagem Dona Alice, citada no fragmento, é a patroa da narradora, dona da cooperativa de catadores de lixo reciclável. Por ter consciência da dificuldade de Carolina em criar três filhos como mãe solo, tem empatia pela situação dela e sempre a ajuda com mantimentos e, inclusive, a remunera um pouco mais que aos demais catadores da cooperativa.
04) Vera é a única das filhas da narradora que não mora com a mãe, mas que esporadicamente está na casa de Carolina. Diferentemente dos irmãos, por morar fora da favela, ela é a que está menos habituada às corriqueiras situações de carência alimentar, motivo pelo qual é sempre a mais revoltada nessas situações, reagindo sempre com seus ‘espetáculos’, conforme destacado no excerto.
08) Mesmo com difícil acesso à escolaridade formal, pela escrita de Carolina Maria de Jesus destaca-se sua aguda consciência histórico-social. No trecho citado, ao mencionar a data “13 de maio”, nota-se tanto o conhecimento do fato histórico (referente à assinatura da Lei Áurea) quanto, em especial, a consciência crítica de que essa libertação de escravizados no Brasil, e de seus descendentes, não ocorreu de modo efetivo.
16) Por mais que temas relacionados à miséria social tenham sido abordados em diversos textos ao longo da história da literatura brasileira (por exemplo, na produção de autores como Castro Alves, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, entre outros), a obra em questão possui uma particularidade que a distingue da expressão desses escritores: o lugar de fala ocupado pela escritora, que, ao viver na pele a intensidade daquilo que narra, confere a esses temas uma expressão singular.