Texto
O verão invadiu outubro e expulsou a primavera. Aqui estou, neste dia esplendente, reduzido
a meu corpo. Sem passado, sem sonho, sem fuga. Presente em minhas unhas, em minha pele,
em meus cabelos. Eu e os demais habitantes deste outubro coroado. Uma onça – não sei se já
repararam – não tem costura. O verão, esta pantera, também não tem. E dentro dele estamos
[05] nós, prisioneiros de uma jaula feliz. O verão não tem municípios, nem governo, nem câmara,
nem eleições. Está deitado ao lado do mar e aos pés da montanha selvagem. Azul e verde, sal
e clorofila.
O verão é feroz. Especialmente um verão como este, ilegítimo, fora de época, produto de
uma subversão planetária. Tudo nele está fora da lei, como a poesia e a paixão desvairada. Por
[10] isso mesmo, tudo nele é intenso e efêmero, como se decidisse esbanjar toda a sua vida num dia
apenas, com a urgência de quem vai morrer às seis da tarde, sangrando, esquartejado, sobre
as montanhas do Leblon.
O verão lembra uma máquina anômala cujas correias e roldanas se estendem por avenidas
e rodam nas nuvens, espiralando, em câmera lenta, numa velocidade diferente dos aviões que
[15] sobrevoam os quarteirões do Flamengo e o Morro da Viúva, preparando-se para descer na pista
do Santos Dumont.
Em meio ao verão, a chama da literatura bruxuleia e se apaga. Não se precisa de chave para
abrir o mundo, quando ele se dá a nós, escancarado, sem espessura e sem sombras. O verão
dos livros é eterno, pode esperar. Já o verão deste dia 25 de outubro de 2007 trepida à nossa
[20] volta, urgente.
Ferreira Gullar, Revista O Globo, 30/12/07
O texto de Ferreira Gullar refere-se, de maneira poética, às mudanças climáticas ocorridas no globo terrestre ao longo das últimas décadas.
Assinale a caracterização correta desse fenômeno.