A LINGUAGEM DA DEPRESSÃO
por Maria Clara Drummond, 13.08.2019.
“Apesar de tudo de bom que vem acontece-
ndo comigo, com tudo que já conquistei, eu
me sinto há alguns anos triste”, escreveu
Whindersson Nunes, o maior youtuber do
[5] Brasil, em abril de 2019. Em uma sequência
de 16 postagens, ele revelou sofrer de depres-
são aos mais de 11 milhões de seguidores que
mantém no Twitter, surpreendendo quem se
acostumou a vê-lo sorrindo e contando piada
[10] nas redes sociais. “Eu tenho tanto medo, tanto
medo de decepcionar, que fico preso em mim
mesmo. Foda-se o dinheiro, os números, eu
não sinto tanta vontade de viver”, escreveu.
Seu relato, que poderia ser uma confissão
[15] íntima, dessas feitas no divã do analista ou a
amigos e familiares muito próximos, é apenas
um dos milhares de desabafos públicos com-
partilhados na internet, com cada vez mais
frequência, por pessoas que sofrem de doen-
[20] ças mentais. Segundo dados do Ministério da
Saúde, divulgados em 2018, o suicídio – des-
fecho trágico de quem enfrenta quadros mais
severos – cresceu 18% de 2007 a 2016 e já é
a quarta causa mais frequente de morte entre
[25] brasileiros de 15 a 29 anos.
Na tentativa de entender melhor o pro-
blema, especialistas têm se dedicado a deci-
frar a linguagem da depressão, um padrão de
discursos que aparece na comunicação de
[30] quem enfrenta a doença. Além de adjetivos e
advérbios negativos, o que mais denota o vo-
cabulário dos deprimidos é o alto uso de pro-
nomes na primeira pessoa do singular (“eu”)
e a predileção por palavras com conotação
[35] absoluta, como “sempre”, “nunca”, “nada” e
“completamente”, que revelam um universo
maniqueísta e sem nuances, em que é extre-
mamente difícil enxergar soluções.
Tal padrão pode ser identificado em regis-
[40] tros muito anteriores à invenção do Twitter.
Em um texto publicado em Diários de Sylvia
Plath:1950-1962, um calhamaço de mais de
mil páginas que pautou o estudo da lingua-
gem da depressão no mundo inteiro e revela
[45] um pouco do que se passava na cabeça da po-
η americana que se matou aos 30 anos, ela
escreve: “Desanimada, incompetente, despre-
parada. Entrei na banheira quente, fiquei de
molho sentindo o calor revigorante, elimi-
[50] nando as dores do meu sistema. Vivo pela
metade? Ando tão cansada. Sempre a ideia de
que poderia fazer tudo melhor, e eu poderia
mesmo”. Salvo pela sofisticação literária, é
fácil notar a semelhança de seu desabafo, es-
[55] crito há quase 70 anos, e o relato de Whin-
dersson, postado em 2019.
Eu, robô
Se antes as análises linguísticas desse
campo de estudo eram feitas manualmente,
[60] hoje isso pode ser feito por meio de algorit-
mos que não só reconhecem padrões como
também oferecem ajuda a quem está em risco.
Desenvolvido por psiquiatras e programa-
dores brasileiros e lançado em fevereiro deste
[65] ano, o Algoritmo da Vida é um deles e age
exclusivamente no Twitter. Funciona da se-
guinte forma: primeiro, a ferramenta rastreia
sequências de palavras e expressões para
identificar os padrões. Depois, é realizada
[70] uma checagem cuidadosa por uma equipe
treinada, que considera contexto, ironias, re-
corrência de termos e periodicidade. Quando
confirmados os indícios da doença, um perfil
criado especificamente para a ação e adminis-
trado por um time formado com o auxílio de
psiquiatras entra em contato com o usuário
por meio de uma mensagem privada e indica
a ajuda do CVV (Centro de Valorização da
Vida). Desde que foi lançada, a iniciativa da
empresa brasileira de tecnologia Byzsys já de-
tectou quase 300 mil menções e contatou
20% dos usuários responsáveis por elas. Des-
ses, 40% acessaram o link do site do CVV en-
viado – ou seja, 24 mil pessoas já foram im-
pactadas pelo serviço. “O algoritmo está fo-
cado em ajudar pessoas em risco e o discurso
de quem pensa em tirar a própria vida cos-
tuma ser ambíguo, mas sempre denota de-
sesperança”, afirma Daniel Barros, consultor
do projeto e professor da Faculdade de Medi-
cina da USP. [...]
(Fonte:https://revistatrip.uol.com.br/tpm/depressao-algoritmosidentificam-sintomas-da-doenca-atraves-deanalise- no-twitter).
Em relação aos elementos da linguagem que identificam a depressão, marque V (verdadeiro) ou F (falso) nas afirmativas dadas.
( ) Na fala de Whindersson, os adjetivos com sentido negativo são “triste” e “medo”.
( ) Na fala de Sylvia Plath, os adjetivos com sentido negativo são “desanimada” e “revigorante”.
( ) Nas falas de Whindersson e Sylvia, não há advérbios de valor negativo.
( ) Nas falas de Whindersson e Sylvia, é possível identificar “tudo” como uma palavra de conotação absoluta.
( ) Nas falas de Whindersson e Sylvia, é possível identificar substantivos com sentido negativo, tais como “medo” e “dores”.
A alternativa que apresenta a sequência correta é