A Educação é cláusula pétrea do credo iluminista-republicano. Não há de existir cidadania sem educação
universal e pública. Sem ela estariam seriamente arriscadas a liberdade e a igualdade. O ideal da educação para
todos nasceu comprometido com o projeto de autonomia do indivíduo, o que supõe capacidade de compreensão
do cidadão, enquanto titular de direitos e fonte do poder republicano.
Os fortes clamores que circulam pelo Brasil e pelo planeta em prol da educação quase sempre estão inspirados
numa versão bastarda dos valores originais do humanismo iluminista. Eles sublinham as exigências impostas
pelas engrenagens da economia. A chamada Teoria do Capital Humano, por exemplo, cuida de atribuir os
diferenciais de crescimento entre países e o agravamento das desigualdades à maior ou menor eficácia dos
sistemas educacionais. A experiência dos países asiáticos (Japão, Coreia, Taiwan, China) é invocada como a
comprovação da importância da educação para o crescimento acelerado da produtividade da mão de obra,
aquisição de vantagens comparativas dinâmicas e melhor distribuição de renda.
“Trate de conseguir boa educação ou será um dos derrotados pela marcha do progresso.” Este é o desafio que
os senhores do mundo lançam aos que lutam por bons empregos. Seria estúpido negar o papel da educação
enquanto instrumento da qualificação técnica da mão de obra. Mas os últimos estudos internacionais sobre
emprego, produtividade e distribuição de renda mostram o óbvio: a boa educação é incapaz de responder aos
problemas criados pelos choques negativos que vulneram as economias contemporâneas.
Exemplos: desindustrialização, reestruturação das empresas imposta pela intensificação da competição, crise
fiscal e perda de eficiência do gasto público. Em suma, se esses fatores reais do crescimento falham, a educação
naufraga como força propulsora do emprego e da distribuição de renda. A Europa e os Estados Unidos estão aí
para demonstrar que pouco vale ter gente mais “empregável” se a economia patina e não cria novos empregos.
A visão simplória e simplista da educação obscurece a tragédia cultural que ronda o Terceiro Milênio. A
especialização e a “tecnificação” crescentes despejam no mercado, aqui e no mundo, um exército de
subjetividades mutiladas, qualificadas ∼, mas incapazes de compreender o mundo em que vivem. Os
argumentos da razão técnica dissimulam a pauperização das mentalidades e o massacre da capacidade crítica.
Na sociedade contemporânea esses trabalhos são executados pelos aparatos de comunicação de massa
apetrechados para produzir o que Herbert Marcuse chamou de “automatização psíquica” dos indivíduos. Os
processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre
fulminantes e esféricas em sua grosseria. Nesses soluços de presunção opinativa, a consciência inteligente, o
pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto.
Passe para a voz ativa o trecho a seguir, mantendo o sentido do período:
“Na sociedade contemporânea esses trabalhos são executados pelos aparatos de comunicação de massa apetrechados para produzir o que Herbert Marcuse chamou de ‘automatização psíquica’ dos indivíduos.” (l. 25- 26)