TEXTO 3
A erva petun. Como é ela usada.
1.§ Outra singularidade americana é uma erva, que os índios chamam petun. Trazem-na os selvagens ordinariamente consigo, em virtude do maravilhoso proveito que tiram dela. Parece-se com a nossa buglossa e os indígenas colhem-na cuidadosamente, fazendo-a secar à sombra, em suas choupanas.
2.§ Os silvícolas americanos usam-na do seguinte modo: envolvem certa porção da planta, já seca, numa grande folha de palmeira, formando, assim, um canudo da grossura de um círio; depois disso, põem fogo a uma das pontas do canudo, aspirando-lhe o fumo pelo nariz e pela boca.
3.§ O petun é muito saudável (dizem), por destilar e consumir os humores supérfluos do cérebro. Além disso, aspirado dessa maneira, mitiga, por algum tempo, a fome e a sede, — motivo pelo qual os índios usam com frequência essa planta, sobretudo quando têm algum assunto a tratar entre si (tiram as fumaradas e, depois, falam). E assim o fazem repetida e sucessivamente, uns após outros, quando estão em guerra, achando que o fumo, nessa ocasião, é muito conveniente. As mulheres é que não usam o petun.
4.§ Essa erva, empregada excessivamente, na realidade atordoa e embriaga, como faz o espírito de um vinho forte. Os europeus, que entre os índios vivem, sentem-se estranhamente atraídos por tal planta e perfume. Se bem que no começo seu emprego não seja sem perigo. Isso antes de a pessoa acostumar-se com ela. Pois o fumo causa suores e frios, produzindo até síncopes (eu mesmo tive ocasião de experimentá-lo). Circunstância que, como pode parecer, não é estranha, porquanto existem muitos outros frutos que ofendem o cérebro, embora sejam delicados e agradáveis ao paladar.
5.§ Diz Plínio que há, em Lyncestida, uma fonte, cuja água embriaga as pessoas; do mesmo modo, uma outra em Panflagônia. Haverá quem pense ser totalmente falso o que eu disse a respeito dessa erva, como se a natureza não pudesse dar tal poder a alguma coisa sua, de acordo com cada uma das regiões do globo terrestre. Por que, então, estaria a América privada desse benefício, uma vez que é um país de clima mais temperado que vários outros? Se alguém não se contentar com o meu testemunho, é só ler Heródoto, o qual, em seu Segundo Livro, refere-se a uma população africana, que vive exclusivamente de vegetais. Segundo Apiano, os partas, banidos e expulsos de sua pátria por M. Antônio, foram viver de certas ervas, que lhes embotavam a memória. Mas os partas julgavam que a planta os estivesse alimentando, embora, com o seu uso, morressem pouco tempo depois. Pelo que não deve a história do petun ser considerada sobrenatural.
(THEVÉT, André Frei. Singularidades da França Antarctica, a que outros chamam de America. Prefácio, tradução e notas do Prof. Estevão Pinto. Edição ilustrada. Companhia Editora Nacional, 1944. p.198-200. Adaptado)
TEXTO 4
Maconha faz mal, sim
O atual liberalismo em torno do consumo da droga está em descompasso com as pesquisas médicas mais recentes. As sequelas cerebrais são duradouras, sobretudo quando o uso se dá na adolescência
1.§ Até pouco tempo atrás vigorou a tese de que a maconha só deflagra transtornos mentais em pessoas com histórico familiar dessas doenças. Essa noção benigna da maconha foi sepultada, entre outros trabalhos, por uma pesquisa feita pelo Instituto de Saúde Pública da Suécia. Um grupo de 50.000 voluntários foi avaliado durante 35 anos. Eles consumiram maconha na adolescência.
2.§ Os suecos demonstraram que o risco de um usuário de maconha sem antecedentes genéticos vir a desenvolver esquizofrenia ou depressão é muito mais alto do que o da população em geral. Entre os usuários de maconha pesquisados, surgiram 3,5 mais casos de esquizofrenia do que na média da população.
3.§ No que se refere à depressão, o número de casos clínicos foi o dobro. Os sinais de perigo da fumaça estão surgindo em toda parte. A razão básica pela qual a maconha agride com agudeza o cérebro tem raízes na evolução da espécie humana. Nem o álcool, nem a nicotina do tabaco; nem a cocaína, a heroína ou o crack; nenhuma outra droga encontra tantos receptores prontos para interagir com ela no cérebro como a cannabis.
4.§ Ela imita a ação de compostos naturalmente fabricados pelo organismo, os endocanabinoides. Essas substâncias são imprescindíveis na comunicação entre os neurônios, as sinapses. A maconha interfere caoticamente nas sinapses, levando ao comprometimento das funções cerebrais.
5.§ O mais assustador, dada a fama de inofensiva da maconha, é o fato de que, interrompido seu uso, o dano às sinapses permanece muito mais tempo – em muitos casos para sempre, sobretudo quando o consumo crônico começa na adolescência. Em contraste, os efeitos diretos do álcool e da cocaína sobre o cérebro se dissipam poucos dias depois de interrompido o consumo.
6.§ Os efeitos psicoativos da maconha são conhecidos desde o ano 2000 antes de Cristo. Seu princípio psicoativo mais atuante é o tetraidrocanabinol (THC). Um outro componente da droga, o canabidiol, é o principal responsável pelos seus efeitos potencialmente terapêuticos.
7.§ No câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o psiquiatra José Alexandre Crippa estuda o efeito do canabidiol no tratamento da fobia social. Trinta e seis voluntários, metade deles composta de fóbicos, ingeriram cápsulas da substância e, em seguida, tiveram de falar em público. Os níveis de ansiedade apresentados pelos portadores do transtorno equivaleram aos registrados pelos participantes sem a fobia. Todos os estudos sérios sobre os potenciais usos médicos da maconha mediram os efeitos de uma única substância, selecionada e isolada em laboratório – e não da inalação da fumaça de um cigarro. Diz Crippa: “Os defensores do uso medicinal do cigarro da maconha querem mesmo é obter a liberação da droga”.
(Revista VEJA, ed. 2293 – ANO 45 – n°44 – 31/10/2012, p.92-100. Adaptado)
Assinale o que se pode afirmar a respeito dos textos 3 e 4.