Dormi feliz e quando acordei não enxerguei mais nada e então comecei a gritar, Estou cego, estou cego! E as pessoas em redor pensando que eu tinha enlouquecido, antes fosse loucura mas era mesmo a cegueira. Fui levado para o hospital e durante um ano os médicos tão atônitos quanto eu mesmo tratando deste cego sem solução e sem explicação, os dias, os meses correndo e aquele espanto, aquela perplexidade... Então pensei, Não quero isto, não quero! e de repente resolvi fugir. Lembrei-me daquele rio correndo tumultuado e que seria a minha libertação. Fugi do hospital e perguntando e tateando pelas ruas quase gritei de alegria quando a voz do rio foi ficando mais próxima, mais próxima e me chamando, Vem!
Poucos passantes na ponte e assim tentei fazer uma cara tranquila quando pousei a bengala no chão e me agarrei ao corrimão de ferro, Agora, já! sussurrei crispado como um gato antes de saltar. Foi então que alguém me agarrou pelo braço. Voltei-me enfurecido, e então?!... Quem vinha se intrometer, quem?!... O desconhecido – era um homem – apanhou a bengala no chão e disse com voz tranquila, Boa tarde! Crispei a boca, baixei a cabeça. Não respondi e ele ainda me segurando, ah! mas o que significava isso? Respirei de boca aberta, calma! fiquei repetindo a mim mesmo. E se ele resolvesse chamar a polícia?
(Lygia Fagundes Telles. Um coração ardente, 2012.)
Assinale a alternativa em que a palavra em destaque é invariável no contexto em que está empregada.