Texto
A máscara
I
– Podem ouvir?
Então ouçam:
– Não,
Não posso querer nada,
Nada do que a minha vontade quer?
A minha necessidade
Não é o que eu desejo.
Ela é o que vocês
E os outros
Receitam
Que eu necessite.
Eu já sei:
– Desejam-me como objeto descartável,
Animal domesticado
II
Um dia...
Eu percebi
Que eu não existia para mim,
Mesmo que eu rejeitasse
As imposições sociais,
Locais,
Internacionais,
‘Legais’.
Obrigam-me
O uso de máscara.
Com ela,
A minha cara
Não é a minha.
É a cara alheia
Do comportamento
Da pessoa produtora de ‘bens e serviços’,
Sem sentimento:
Centrada no pensamento ‘lógico’
E seco,
Sem utilidade nenhuma
Para o coração!!!
Pela ‘lei do estímulo-resposta’.
Criatura ingênua,
Plenamente submissa e condicionada.
As minhas manifestações emocionais,
De amor e de alegria são permitidas
Mas com muitas restrições
Culturais e ‘educacionais’!...
Pior ainda:
As de raiva, de tristeza e de medo
São expressamente condenadas!
Foi assim,
Desde a minha infância!
A minha cara social é a ‘lógica’
Da ideologia imposta a mim:
Produção de ‘mais valia’
Para os donos do ‘capital’!
E o que é péssimo:
Meu pão de cada dia
Depende a obediência cega
A uma hierarquia:
Inquestionável!...
Então,
Faço o meu trabalho,
Mas com avaliação,
Sujeita a penalidades absurdas
Da competitividade de resultados,
Não de processos!
Se o sucesso é meu,
O mérito nem sempre é.
Se meu ‘status’ vier do cargo,
Perversos conspiram contra
Minha pessoa e habilidades,
Para assumirem minhas funções!
III
A vontade da minha vida,
Fica trancada no segredo
De um grande Amor que tenho!
Longe de condenações, cobiças, invejas e ciúmes.
Meu destino
É o berço do silêncio pessoal
E da solidão social.
IV
Pergunto a vocês todos:
– Por que
Engolir tudo,
Meu Deus,
Das pregações institucionais,
‘Legalizadas’, regulamentadas,
V
Por isso,
Eu grito...
Com muita raiva:
– Vão vocês
E outros deuses todos,
Cada qual
Para seu casulo
Petrificado,
Dourado e adorado!
E tranquem bem as portas
E as janelas
VI
Restam-me apenas
A minha armadura de guerra abstrata,
O meu cofre blindado de cuidados,
A minha cabeça, que lembra, pensa
E voa em fantasias imensas...
Resta-me, também, o meu coração apaixonado,
À disposição do quê e de quem
Dele necessita
E que eu mesmo alimento e acaricio
Todos os dias.
É lógico:
– Com a ajuda do meu Amor
Eu não declaro
Assumir as escolhas
Que deveriam ser
As minhas,
Em razão de penalidades
Mortíferas!!!
Se eu ainda não aceitar a morte,
Embriagam-me de desolação!
De deuses
Extremamente falsos?
Guardo os segredos deles,
Se não cumprem juramentos,
Nem guardam segredos meus?
Que espiam as pessoas!
Mas deixem-me sair
À porta do meu,
Sem vigias
De câmeras de investigação!
Nada de ‘sociedade líquida’!
É dura e imutável,
Nas ambições de poderes,
Com sugestões de deveres
Impostos!
Em locais e tempos plenamente secretos.
– Ouviram?
Dentro da minha armadura,
Imponho respeito
E posso usar as armas
Que eu crio.
No cofre,
Guardo segredos.
Na cabeça,
Lembranças, sonhos e projetos.
E, no coração,
O meu Amor,
Dado e recebido.
Da sociedade vulnerável
De ideologias enganadoras
Do Século 21,
Não faço questão nenhuma...
Nem me apego...
Aos encantos ou desencantos,
Espinhos, odores,
VII
Eu tinha um sonho
De viver...
Sem máscaras,
Nem armas ou armaduras.
Não deu certo!
Enfim,
Aprendo a me adaptar
Para sentir a vida!
Sonoridades ou cores,
Sal
Ou doce.
Não me entrego a ninguém,
Nem a nada?...
Não:
– Entrego-me...
Ao meu grande Amor!
E saibam todos vocês...
E os outros, também...
Que não sou,
Jamais...
O contrário,
Nem igual...
À máscara
Que me obrigam usar!
FARIA, Luiz Antônio de. Aparecida de Goiânia: Faculdade Alfredo Nasser, jan. de 2020.
O poema A máscara (Texto), de Luiz Antônio de Faria, é uma poesia contemporânea, uma produção poética característica do Século XXI.
Acerca da estética contemporânea associada às produções poéticas, examine as afirmações a seguir.
1. Apresenta temáticas variadas, que vão desde a exploração de temas considerados ‘eleitos’, até temas sociais, de cunho reflexivo, psicológico, espiritualista, humorístico, entre outros.
2. Há uma intensa preocupação com a linguagem e com a experimentação temática e formal.
3. É influenciada pela ruptura com os moldes decadentistas de seus antecessores.
4. É fortemente influenciada pelas vanguardas poéticas brasileiras, que tiveram lugar nas décadas de 50 e 60 no Brasil, entre as quais encontra-se o concretismo.
5. Apresenta uma dimensão social e politizada bastante acentuada. 6. Contempla, em sua diversidade, poemas em prosa e a literatura de cordel.
7. Tem como uma de suas características mais enfáticas a necessidade de reflexão e compreensão da relação indivíduo/sociedade.
8. A fragmentação de versos, palavras e sílabas poéticas é um recurso poético que remete à fragmentação do homem contemporâneo.
9. Contempla a fusão de gêneros literários.
10. Incorpora, por vezes, signos não verbais em consonância aos verbais, no espaço poético.
A soma dos números das sentenças acima corretas é: