Texto I
Só de amor (Nome da peça teatral)
Trecho extraído e adaptado de uma das músicas da peça que trata de uma cantora que tem síndrome do pânico.
Samba Lelê tá doente...
Tá com a cabeça quebrada.
Samba Lelê precisava é de um:
Rivotril, Frontal, Frontal com Rivotril;
Rivotril, Frontal, Frontal com Rivotril;
Lexotan, Lexapro;
Lexotan, Lexapro; e,
Valium, vai p’ra acalmar, p’ra apagar... só p’ra relaxar...
E p’ra dormir, só p’ra dormir, Dramim...
Dramim... Dramim... Dramim... só p’ra dormir.
Ai, ai, eu só quero dormir oito horinhas de sono com Dramim.
É tarja vermelha, dizem que não faz tão mal.
Ai, ai, Dramim, Dramim, vem p’ra mim, o meu Dramim, eu te quero tanto assim, você me faz muito feliz!
Fluoxetina, acordou, Stilnox, apagou.
Fluoxetina, acordou, Lorax, vem, vem, vem Lorax!
Vem, vem: Lorax, Rivotril, Lexotan, Lexapro, Diazepan, é com Frontal, é sem Frontal, Rivotril, Rivotril...
Texto II
Psicologia de um vencido
(Augusto dos Anjos)
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Texto III
A máscara
I
– Podem ouvir?
Então ouçam:
– Não,
Não posso querer nada,
Nada do que a minha vontade quer?
A minha necessidade
Não é o que eu desejo.
Ela é o que vocês
E os outros
Receitam
Que eu necessite.
Eu já sei:
– Desejam-me como objeto descartável,
Animal domesticado
II
Um dia...
Eu percebi
Que eu não existia para mim,
Mesmo que eu rejeitasse
As imposições sociais,
Locais,
Internacionais,
‘Legais’.
Obrigam-me
O uso de máscara.
Com ela,
A minha cara
Não é a minha.
É a cara alheia
Do comportamento
Da pessoa produtora de ‘bens e serviços’,
Sem sentimento:
Centrada no pensamento ‘lógico’
E seco,
Sem utilidade nenhuma
Para o coração!!!
Pela ‘lei do estímulo-resposta’.
Criatura ingênua,
Plenamente submissa e condicionada.
As minhas manifestações emocionais,
De amor e de alegria são permitidas
Mas com muitas restrições
Culturais e ‘educacionais’!...
Pior ainda:
As de raiva, de tristeza e de medo
São expressamente condenadas!
Foi assim,
Desde a minha infância!
A minha cara social é a ‘lógica’
Da ideologia imposta a mim:
Produção de ‘mais valia’
Para os donos do ‘capital’!
E o que é péssimo:
Meu pão de cada dia
Depende a obediência cega
A uma hierarquia:
Inquestionável!...
Então,
Faço o meu trabalho,
Mas com avaliação,
Sujeita a penalidades absurdas
Da competitividade de resultados,
Não de processos!
Se o sucesso é meu,
O mérito nem sempre é.
Se meu ‘status’ vier do cargo,
Perversos conspiram contra
Minha pessoa e habilidades,
Para assumirem minhas funções!
III
A vontade da minha vida,
Fica trancada no segredo
De um grande Amor que tenho!
Longe de condenações, cobiças, invejas e ciúmes.
Meu destino
É o berço do silêncio pessoal
E da solidão social.
IV
Pergunto a vocês todos:
– Por que
Engolir tudo,
Meu Deus,
Das pregações institucionais,
‘Legalizadas’, regulamentadas,
V
Por isso,
Eu grito...
Com muita raiva:
– Vão vocês
E outros deuses todos,
Cada qual
Para seu casulo
Petrificado,
Dourado e adorado!
E tranquem bem as portas
E as janelas
VI
Restam-me apenas
A minha armadura de guerra abstrata,
O meu cofre blindado de cuidados,
A minha cabeça, que lembra, pensa
E voa em fantasias imensas...
Resta-me, também, o meu coração apaixonado,
À disposição do quê e de quem
Dele necessita
E que eu mesmo alimento e acaricio
Todos os dias.
É lógico:
– Com a ajuda do meu Amor
Eu não declaro
Assumir as escolhas
Que deveriam ser
As minhas,
Em razão de penalidades
Mortíferas!!!
Se eu ainda não aceitar a morte,
Embriagam-me de desolação!
De deuses
Extremamente falsos?
Guardo os segredos deles,
Se não cumprem juramentos,
Nem guardam segredos meus?
Que espiam as pessoas!
Mas deixem-me sair
À porta do meu,
Sem vigias
De câmeras de investigação!
Nada de ‘sociedade líquida’!
É dura e imutável,
Nas ambições de poderes,
Com sugestões de deveres
Impostos!
Em locais e tempos plenamente secretos.
– Ouviram?
Dentro da minha armadura,
Imponho respeito
E posso usar as armas
Que eu crio.
No cofre,
Guardo segredos.
Na cabeça,
Lembranças, sonhos e projetos.
E, no coração,
O meu Amor,
Dado e recebido.
Da sociedade vulnerável
De ideologias enganadoras
Do Século 21,
Não faço questão nenhuma...
Nem me apego...
Aos encantos ou desencantos,
Espinhos, odores,
VII
Eu tinha um sonho
De viver...
Sem máscaras,
Nem armas ou armaduras.
Não deu certo!
Enfim,
Aprendo a me adaptar
Para sentir a vida!
Sonoridades ou cores,
Sal
Ou doce.
Não me entrego a ninguém,
Nem a nada?...
Não:
– Entrego-me...
Ao meu grande Amor!
E saibam todos vocês...
E os outros, também...
Que não sou,
Jamais...
O contrário,
Nem igual...
À máscara
Que me obrigam usar!
FARIA, Luiz Antônio de. Aparecida de Goiânia: Faculdade Alfredo Nasser, jan. de 2020.
Examine as afirmações seguintes acerca dos textos I, II e III.
1. Todo o texto seguinte aos três primeiros versos do texto I é metalinguístico.
2. Não há metalinguagem no início do texto II.
3. O eu lírico interage com o leitor no texto III.
4. Há uma estreita relação de interdependência entre a indústria farmaceutica e o eu lírico nos textos I, II e III.
5. O eu lírico reage às ameaças da vida social, no texto III. 6. O eu lírico define sua própria autonomioa no texto III.
7. O eu lírico define sua própria autonomioa no texto II. 8. O eu lírico define sua própria autonomioa no texto I.
9. No texto I, o eu lírico reage por meio do uso de drogas às imposições da vida social.
10. No texto II, o eu lírico reage com repugnância às imposições da vida social por meio do uso de drogas.
O número resultante da soma dos números das afirmações corretas, multiplicado pelo número resultante da soma dos números das afirmações incorretas é: